Texto: Carla Tôzo – Colaboração: Ana Caroline Oliveira da Silva – Fotografias: Eduardo Viné Boldt

Oswaldo Antonio Fautino, 65 anos, queria ser ator quando menino, mas logo aos sete, oito anos percebeu que não havia “espaço” para atores negros. Acabou indo parar no jornalismo mais pela qualidade da escrita do que pelo “interesse”. “É como alguns casamentos. As vezes começam por acordos, interesses, mas depois o casal acaba se apaixonando”. Foi assim com Faustino. Se apaixonou por tudo que o jornalismo lhe trouxe.

 Nascido em 1952 na cidade de Mairinque, no estado de São Paulo, esse corinthiano roxo é filho de um ferroviário e de uma cozinheira. De família simples e bom de prosa e letras, optou por cursar comunicação social – ênfase em jornalismo- em 1975 aqui na Fiam.

“Eu entrei na Fiam quando o prédio ainda era lá no Jabaquara. Havia uma propaganda enorme sobre essa faculdade e só no último ano que foi lá no Morumbi. Nesse período todo eu aprendi muito e comecei a enxergar coisas que até não via”.

A começar pela política. Faustino tinha um colega que estudava na Fiam e na ECA e produzia um jornal chamado Cobra de Vidro. Era um jornal político em plena ditadura militar, além disso havia um professor. O professor Hélio Alcântara. “Eu nunca vou me esquecer. Ele parecia Marx. Tinha cabelão e barba branca e a primeira fala dele na aula foi ‘tudo que vocês fazem é um ato político. A música que vocês ouvem, a roupa, o que comer’. Esse cara me encantou e eu que me considerava um mal aluno no segundo grau, aquele tipo que gostava da farra pensei ‘caramba! Agora a história é outra e a Fiam me proporcionou tudo isso.”, relembra.

Foi na faculdade também que ele conheceu sua esposa Ana. Não havia muitos negros na faculdade naquela época (e ainda hoje infelizmente). “Era eu, a minha mulher e sua amiga inseparável Antonia, o Ubirajara e um outro rapaz que esqueci o nome. Professor não tinha nenhum”.

 

Entrei no jornalismo pela porta dos fundos

Ao contrário dos dias atuais em que o estudante de jornalismo tem um caminho árduo em busca de um estágio, Faustino já trabalhava quando se formou em 1976. Era na Agência Folha. Aliás, de 1976 até 2008 o jornalista ficou desempregado apenas um mês.

Queriam um repórter para fazer polícia e ninguém queria isso. O glamour do jornalismo era ser repórter de economia, política. Eles trabalhavam com a consequência, mas Oswaldo trabalharia com a causa. “Eu entrei pela porta dos fundos, entrei pelo que Percival de Sousa diz que é ‘a rede de esgoto do jornalismo’. Eu trabalhei com a realidade, cotidiano, a periferia, a rua e aí me convenci de que poderia fazer um jornalismo policial de qualidade”.

“Eu entrei pela porta dos fundos, entrei pelo que Percival de Sousa diz que é ‘a rede de esgoto do jornalismo’. Eu trabalhei com a realidade, cotidiano, a periferia, a rua e aí me convenci de que poderia fazer um jornalismo policial de qualidade”.

E fez. Certa vez foi cobrir um homicídio em uma favela na região de São Miguel Paulista – a favela do Tijuco Preto. Havia um córrego com esse nome. Oswaldo se arrumou todo e até passou perfume, mas ao pisar na “pinguela”…ploft…caiu no córrego e ficou com água até a cintura. “E agora?! Como voltar pra casa? E vou voltar sem a matéria?! Bem…me aproximei das pessoas e disse ‘olha me desculpe, mas vou precisar escrever a matéria’ e sabe que fiz uma boa matéria naquele dia?!… é o Percival tinha razão”, gargalha ao contar essa peculiaridade.

Só no Estadão ficou 26 anos e depois de tanto tempo na casa e esperando alçar voos mais altos, o repórter recebe um “banho de água fria” ou seria algo muito pior?! Afinal, as pessoas “tinham vergonha de se declarar racista”.

Naquela época as pessoas entravam no jornal com um cargo X, por exemplo, repórter grau 1 e depois ia crescendo, mudando para repórter 2, 3 até chegar a editor.  “Eu entrei no Estadão no degrau 1 e 26 anos depois eu sai no mesmo cargo. Será que não tinha valor para mudar de categoria?! Se não tinha porque não me demitiram?! Me conservaram ali, no mesmo lugar. Nos últimos cinco anos eu deixei de ser repórter 1 e virei sabe o que?! Radioescuta. Nossa! Fiquei tão feliz, mas tão feliz que falei que ia me dedicar muito para que me contratassem no ano seguinte”, conta com uma forte e longa gargalhada. Gargalhada?! Sim, mas ali tinha muito mais. Havia ironia, raiva, o reconhecimento de que a situação é mais grave do que aparenta ser.

Mas não teve mágoa, inclusive quando foi demitido fez questão de ir conversar com o Dr. Ruy. A secretária até se assustou: “falar com o Dr. Ruy?!”. Sim. “Eu trabalhei aqui 26 anos e não posso falar com ele?!”. Falou. Deu seu recado. “Eu não vim reclamar. Eu vim agradecer porque eu criei 5 filhos trabalhando aqui. Deixei um recado pra ele. Eu entendo que o jornal me deixou ali fazendo o que ninguém queria fazer. É como o brasileiro que vai para os Estados Unidos. Aqui ele não quer fazer nada, mas lá lava banheiro. É. Eu estive ali esse tempo todo mantendo o banheiro limpo”.

 

Lidando com o racismo

“Eu sempre percebi, senti isso na minha vida”, diz. Mas as “coisas” não eram chamadas de racismo. Era preconceito, discriminação, falta de vaga… as palavras têm peso e ao usar outros termos a situação parece se “amenizar”, mas quem sente na pele sabe que não ameniza.

“É claro que você se revolta, mas a vida me ensinou a tirar isso de letra e o jornalismo me ensinou mais ainda.”

Aos 19 anos se arrumou todo como sua mãe o ensinou. Fez a barba, penteou o cabelo direitinho e até colocou terno. Foi participar de um processo seletivo para trabalhar em uma associação de advogados no setor de arquivo. Fez o primeiro teste de português e matemática, depois o de organizar o arquivo em ordem alfabética. Foi muito bem, segundo a secretaria que o atendeu ao telefone. “Olha você foi muito bem. Não errou nada no teste e terminou a organização com o dobro de tempo do seu concorrente. Ele, por exemplo, errou muitas coisas em português e em matemática. Pode vir aqui amanhã pra fazer a entrevista”. E ele foi. Confiante. Conversa com o “chefe” que pede para aguardar mais uma ligação. Liga no dia seguinte. A resposta?! Não foi aprovado. “É claro que você se revolta, mas a vida me ensinou a tirar isso de letra e o jornalismo me ensinou mais ainda. Aí eu pensava ‘vocês que não sabem o cara maravilhoso que vocês perderam, azar de vocês’. Mas na hora dá muita revolta, mas na minha geração as pessoas não tinham coragem de reagir da forma que estão reagindo agora”.

Foi assim ainda em muitos outros momentos. Na carreira e na vida.

“As minhas pautas nunca eram aprovadas. Sempre havia uma desculpa, tudo era mais importante do que eu apresentava, ainda mais quando havia dados de genocídio de jovens negros e pobres”. Mas o jornalismo o salvou. As blitz eram amenizadas quando viam que o rapaz negro tinha carteirinha de jornalista. “Um dia eu e mais dois jornalistas – todos negros – estávamos em um táxi subindo a Consolação. Estava uma chuvarada que só. Vem a polícia e pede para parar e descer do carro e colocar as mãos para cima no muro do cemitério. Sim, embaixo da chuva. Quando viram a carteirinha disseram que podíamos voltar para o carro e que aquilo era ‘pra nossa segurança’. E quem não tem carteirinha pra se proteger?! Como é que faz?!”.

Oswaldo é taxativo ao afirmar que a “mídia é a cara da sociedade que a gente vive, que é a fotografia da sociedade que vivemos”. Hoje, aos 65 anos ainda vê muita coisa. Ele mora na Freguesia do Ó e usa transporte público. Um belo dia voltando para casa são parados por mais uma blitz. Todos os homens devem descer e colocar as mãos para cima. Ele por ser idoso é liberado e o comando pede para a perua seguir. “Eu fiquei pensando ‘me livrei porque sou velho’, como se não tivessem criminosos velhos, mas o pior é como esses jovens são tratados. Todos tiveram que descer do transporte e ficar ali com as mãos pra cima. Como voltaram pra casa?! Tinham dinheiro pra pegar outro transporte?! A pobreza tem cor, mora na periferia e é preta”, lamenta.

“Eu fiquei pensando ‘me livrei porque sou velho’, como se não tivessem criminosos velhos, mas o pior é como esses jovens são tratados. Todos tiveram que descer do transporte e ficar ali com as mãos pra cima. Como voltaram pra casa?! Tinham dinheiro pra pegar outro transporte?! A pobreza tem cor, mora na periferia e é preta”

 

Outras funções

Sabe aquele sonho de ser ator? Bem. Ele já se realizou algumas vezes. Atuou na TV da Gente, de Netinho de Paula vivendo o personagem Tio Bah, um contador de histórias do universo negro infantil.

É colaborador há 20 anos da Revista Raça. “Aqui eu podia me realizar e falar de coisas que o jornal não me permitia. Falar sobre o negro. Como a revista tinha assuntos ‘leves’ como beleza, moda e etc, cabia a mim fazer a reflexão mais dura e séria sobre o negro”.

Oswaldo hoje está aposentado, mas integra a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo – COJIRA, cuida dos netos e dá muitas palestras para jovens. “Vira e mexe me chamam para conversar com jovens – de escolas muitas vezes bem caras – para falar sobre o que vi, vivi, sobre o racismo. Como não faz parte da realidade deles, eles não imaginam de fato o que está aí fora, mas precisam enxergar e eu faço a minha parte”, acredita.

Também aproveita o talento para as letras que tem desde menino para escrever. E não são poucos os livros publicados até aqui. É co-autor – com Aroldo Macedo – nos A cor do Sucesso (editora Gente, 2000), Luana, a menina que viu neném (FTD, 2000), Luana e as sementes de Zumbi (FTD, 2004), Luana, capoeira e Liberdade (FTD, 2009) e Luana e as Asas da Liberdade (FTD, 2010). Pela editora Selo Negro/Summus tem a biografia do escritor e compositor Nei Lopes (2009) e A Legião Negra dos Afro Brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932 sobre a presença negra na cidade de São Paulo, do final do século XIX às primeiras décadas do Século XX.

O ariano de Mairinque que tinha o sonho de ser ator e foi parar no jornalismo conseguiu vencer como ele mesmo gosta de reforçar. “Eu sou um sobrevivente, eu consegui passar por tudo”. Sim! Conseguiu.

“Eu sou um sobrevivente, eu consegui passar por tudo”

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