Beatriz Trezzi Vieira*

A busca pela prática de um jornalismo que aponte novos caminhos para a sociedade nos dias de hoje é tão desafiador quanto urgentemente necessária. O professor Dennis de Oliveira, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, traz exatamente isso em seu novo livro inspirado na obra do educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997).

Jornalismo e Emancipação: Uma prática jornalística baseada em Paulo Freire (Appris Editora) é fruto da tese de livre-docência do professor e ativista, defendida em 2014. Na obra, Dennis parte do ideal freireano de educação libertadora para propor um fazer jornalístico capaz de promover emancipação, inclusão e cidadania, papel que a atividade deixou de cumprir, segundo ele, ao desvirtuar-se ante o poder do capital na contemporaneidade, com a consequente espetacularização que passou a caracterizar a mídia.

Por meio do resgate da evolução do jornalismo, o professor traça a trajetória dessa atividade, que nasce como agente fomentador e da esfera pública e consolidador da democracia, até a condição atual, quando sucumbiu ao poder da hegemonia capitalista no mundo globalizado.

“O jornalismo emancipatório seria, então, aquele capaz de promover a reconstrução do discurso midiático a partir da perspectiva da superação das dinâmicas de opressão em todas as suas vertentes, trazendo à tona vozes diversas, ampliando fontes e perspectivas de abordagem e humanizando as narrativas para revelar as experiências cotidianas em toda a sua diversidade.”

Conceitos sobre poder e controle social são analisados tanto sob a ótica de referências como Michel Foucault, Karl Marx e Sigmund Freud, como na perspectiva mais atual de Zygmunt Bauman, evidenciando o esvaziamento da atividade política e a prevalência da lógica alienante do mercado e do consumo sobre as dinâmicas sociais e políticas.

Nesse cenário, a proposta, então, é a de apontar pistas e caminhos de mudança, de resgatar o papel do jornalismo como agente transformador, por meio de uma ação emancipadora. Emancipação nas perspectivas de Paulo Freire, do psicólogo espanhol Ignacio Martin Baro, um dos precursores da pedagogia da libertação, e Óscar Jara, sociólogo e educador popular peruano, que preconizam os projetos coletivos, ou em comunhão, capaz de transformar as relações sociais a partir do protagonismo dos setores oprimidos.

O jornalismo emancipatório seria, então, aquele capaz de promover a reconstrução do discurso midiático a partir da perspectiva da superação das dinâmicas de opressão em todas as suas vertentes, trazendo à tona vozes diversas, ampliando fontes e perspectivas de abordagem e humanizando as narrativas para revelar as experiências cotidianas em toda a sua diversidade.

O livro propõe aos comunicadores, em particular, e à sociedade, em geral, uma reflexão coletiva na busca de alternativas para os dilemas que ainda assolam a condição humana, sendo a desigualdade e suas consequências talvez a maior delas. Lembrando as palavras de Freire, Oliveira nos conclama a repensar essa realidade: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, os serem humanos se libertam em comunhão”.

* Beatriz Trezzi Vieira é jornalista, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e docente do FIAMFAAM Centro Universitário. Atualmente, faz doutorado em Direitos Humanos pela Faculdade de Direito da USP.

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