Considerações sobre a pesquisa de Luiz Augusto Campos e João Feres Junior

Autor: Bruno Casalotti (bacharel em Ciências Sociais pela USP; mestre em Sociologia pela UFRGS; professor do FIAM-FAAM Centro Universitário)

A produção de audiovisual, considerada de um ponto de vista social, engloba múltiplas dimensões que não se resumem apenas a seus aspectos tecnológicos. O conhecimento mobilizado na realização de filmes compreende não apenas o saber-fazer técnico: ele abarca também visões de mundo e, consequentemente, identidades vinculadas a determinados grupos da sociedade. Nesse sentido, é se de se considerar que a origem social dos produtores e difusores do audiovisual se reflete nas características da imagem que é veiculada – seja em obras cinematográficas, programas de televisão, filmes publicitários e/ou institucionais.

A partir desta hipótese, Luiz Augusto Campos e João Feres Junior desenvolveram em 2015 um importante levantamento sobre a representação étnico-racial em telenovelas produzidas e veiculadas pela Rede Globo de Televisão entre os anos de 1985 e 2014. O artigo com os resultados desta pesquisa, publicado em 2016, tem como título “’Globo, a gente se vê por aqui?’: Diversidade racial nas telenovelas das últimas três décadas (1985 – 2014)”[1]. Trata-se de um trocadilho com o velho jargão global, (Globo, a gente se vê por aqui), porém elaborado com um ponto de interrogação questionador: será, afinal, que todos os grupos étnico-raciais podem realmente “se ver” na programação da emissora?

O objeto de estudo dos pesquisadores não é fortuito. As telenovelas da Globo, tanto quanto o conjunto de sua programação, possuem uma abrangência de peso. As narrativas veiculadas pela emissora, portanto, refletem relevantes visões sobre o Brasil e seu povo. Esta relevância se justifica pelo alargado potencial de adesão das telenovelas junto à população, uma vez que elas desfrutam de uma audiência historicamente elevada e disseminada por todo o território. Igualmente, destas narrativas, depuram-se estereótipos e graus de visibilidade dos diferentes grupos que constituem toda a tessitura populacional brasileira. É neste ponto que o estudo de Campos e Feres Jr. se insere de maneira crítica.

Os dados levantados pelos autores impressionam pelo desequilíbrio. Segundo informado, as 156 telenovelas globais lançadas entre 1985 e 2014 possuem, em média, 91,2% dos seus personagens centrais representados por atores e atrizes brancos. Tendo em vista que 47,9% da população brasileira se reconheceu como tal no último censo de 2010, houve aqui uma considerável sobrerrepresentação desse grupo nas produções em questão. Destas telenovelas, ressalte-se ainda, vinte e seis tiveram 100% dos atores e atrizes da trama central classificados como brancos.

O caráter hiperbólico destes números chega mesmo a sugerir exagero ou imprecisão empírica na coleta dos dados desta pesquisa. Para diminuir os problemas em torno da identificação étnica dos atores considerados no levantamento, Luiz Augusto Campos e João Feres Junior adotaram um procedimento metodológico cauteloso. Como, afinal, determinar se uma pessoa é branca ou negra em um país caracteristicamente demarcado pela mestiçagem? A saída foi submeter a imagem dos atores pertencentes aos núcleos centrais das tramas novelescas à apreciação independente de pesquisadores que não participaram do levantamento feito pelos autores, ou seja, um procedimento de “heteroclassificação em diferentes níveis”[2].

Um segundo problema percebido pelos autores diz respeito à ambientação das novelas: naquelas “menos brancas”, há uma tendência de que as narrativas se passem em espaços marginalizados da sociedade. É o caso, por exemplo, da novela Salve Jorge (2012-2013), cuja locação prioritária foi uma favela carioca[3]. Sabemos que a população parda e negra, no Brasil, ocupa as escalas menos favorecidas das hierarquias sociais. Todavia, é mais provável que esta forma de representação étnico-racial tenha mais a ver com preconceitos estabelecidos entre os autores, produtores e diretores de elenco das novelas do que com uma pretensa intenção de se apresentar o país como ele é.

No que se refere ao período histórico no qual se passam as novelas, há um problema análogo. Segundo Luiz Augusto Campos e João Feres Junior, as personagens não brancas costumam ter uma representatividade maior em novelas ambientadas no Brasil Colônia e no Império[4]. No imaginário novelesco da Rede Globo, o negro aparece marcantemente durante o período formativo do povo brasileiro, isto é, na Colônia e no Império – que, segundo os auspícios de nosso mito identitário, é quando se misturam as três etnias básicas da população brasileira (índios, brancos e negros). Posteriormente a isso, a ideia de uma população miscigenada torna invisível a negritude. Em suma, a nossa herança africana aparece aqui como referência a um passado que (direta ou indiretamente) é apresentado como superado.

Voltamos à hipótese colocada no primeiro parágrafo deste texto. Segundo os autores, portanto, qual seria a origem destas adversidades em torno da representação étnico-racial das telenovelas da Rede Globo de televisão? A resposta é tão simples quanto intricada de ser debatida: a ausência estrutural de negros entre escritores, roteiristas e diretores principais nas equipes de produção da emissora. Essa privação acaba, portanto, por se refletir na tipologia social que é apresentada nas histórias que são veiculadas diariamente em milhares de lares brasileiros. A despeito de iniciativas recentes de reparação por parte da Globo[5], pode-se apontar – a partir do argumento central de Luiz Augusto Campos e João Feres Junior – que o caminho para se resolver o problema da representação étnico-racial das telenovelas globais passa por uma maior presença de negros e pardos nas estruturas profissionais da emissora.

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[1] CAMPOS, Luiz Augusto; JÚNIOR, João Feres. “Globo, a gente se vê por aqui?” Diversidade racial nas telenovelas das últimas três décadas (1985–2014). Plural (São Paulo. Online), v.23, n.1, p.36-52, 2016.

[2] Como explicam os próprios autores, trata-se de um processo em que os atores considerados são expostos a uma dupla de pesquisadores exógenos à pesquisa. Os mesmos, então, classificam os indivíduos de acordo com os critérios de raça e etnicidade referendados pelo IBGE na elaboração dos censos populacionais (brancos, pretos, pardos, amarelos ou indígenas). Na dúvida sobre a identidade de algum indivíduo, a imagem do mesmo era então submetida a uma segunda dupla de pesquisadores. Se a dúvida persistisse, o indivíduo então era “enviezadamente” considerado como negro, de maneira a se evitar críticas de que o número de atores dessa cor estaria sendo tendenciosamente subnotificado. Ressalte-se que mesmo com esse recorte proposital, a quantidade de negros nas tramas centrais das telenovelas persistiu muito abaixo de qualquer expectativa.

[3] Segundo o levantamento, novelas ambientadas em favelas ou cortiços tendem a ter uma média de personagens não brancos bastante elevada (16,77%), quase o dobro da média geral.

[4] Segundo o levantamento, nestas novelas históricas a média de personagens pretos e pardos atinge 18,48% (ou seja, mais do que o dobro da média geral).

[5] Programas como Amor e Sexo e Encontro com Fátima Bernardes, para citar apenas dois exemplos, têm encampado discussões sobre empoderamento de minorias. Todavia, se tomarmos como premissa o argumento de Luiz Augusto Campos e João Feres Junior, tais iniciativas se revelarão muito tímidas caso não se promova uma maior incorporação de negras e negros às estruturas profissionais da emissora.

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