Com humor, violência e abordagem de temas sociais, blaxpoitation marca os anos 1970 por trazer negros como protagonistas

 

Fabíola Tarapanoff

Serviçal, ama ou escravo. Esses eram os papéis destinados aos negros, como se vê em obras clássicas de Hollywood até os anos 1970. Afinal quem não se lembra da ama Mammie (Hattie McDonald) em E o vento levou? Tudo começa a mudar quando 1970 surge um gênero que questiona isso, trazendo os negros como protagonistas de obras em sintonia com as mudanças na sociedade, seguindo o discurso de líderes como Martin Luther King e Malcolm X. Trata-se do Blaxpoitation, junção das palavras Black (negro) e exploitation (exploração), que traz obras dirigidas por negros e com atores negros como protagonistas, heróis ousados, com sex appeal desejados e que buscam realizar a justiça a seu modo, que têm como temática a violência na periferia.

Os filmes tinham como público-alvo principalmente a população negra dos Estados Unidos, que ainda sofria de preconceito e discriminação no país, que teve leis de segregação racial até os anos 1960, obrigando que negros se sentassem na parte de trás dos ônibus ou usassem banheiros separados dos brancos. Entre as décadas de 1910 e 1950 já tinha sido feito algo parecido, os race films.

O gênero tem vários subtipos, incluindo crime (Foxy Brown), ação/artes marciais (Three the Hard Way), westerns (Boss Nigger), horror (Abby, Blacula), prisão (Penitentiary), comédia (Uptown Saturday Night) e musical (Sparkle).

Um dos primeiros filmes blaxpoitation foi Sweet Sweetback’s Baadasssss Song, que retrata o cotidiano marginalizado e os hábitos e consumos. Dirigido por Melvin Van Peebles em 1971, virou um clássico, por trazer de forma original a discussão de temas sociais, aliada a uma trama ágil e com diálogo sobre banalidades.

Across 110th Street, dirigida por Barry Shear em 1972 trouxe a violência ainda mais exacerbada e diálogos cheios de gírias. A obra se passa no Harlem e o título se refere à fronteira entre esses dois universos: dos italianos e negros. A história mostra a transferência de cargos no departamento de polícia, sendo que o Capitão Matelli (Anthony Quinn) é substituído pelo tenente negro Pope (Yaphet Kotto). A trama mostra toda a agressividade da polícia, além do ladrão que é torturado pelos próprios colegas, sejam eles “Brothers” ou membros da máfia italiana, em referência a clássicos como  O poderoso chefão, de Francis Ford Coppola. A violência aparece na sua forma mais crua: na tortura e no uso de armas. A cena em que Jim Harris (Paul Benjamim) está morrendo e ele percebe que tem poucas oportunidades na vida é emblemática: ele decide jogar a maleta de dinheiro para os que passam ali no Harlem. Trata-se de uma afronta à polícia e uma forma de sua vida ter sentido.

 

Across 110th Street, de Barry Shear (1972)
Fonte: Beverly Cinema

Vários atores e atrizes seriam consagrados no gênero, como Richard Roundtree em Shaft (dirigido por Gordon Parks em 1971 e refilmado em 2000 com Samuel L. Jackson como protagonista) e Jim Kelly, campeão de caratê que atuou com Bruce Lee em Enter the dragon.

A grande diva desses filmes é a atriz Pam Grier, que ganhou desta que com Coffy (1973), de Jack Hill e chegaria ao estrelato com Jackie Brown (1997), homenagem de Quentin Tarantino, grande fã do gênero. Na obra de Tarantino ela faz uma comissária de bordo que trafica dinheiro a mando de um vendedor de armas. Quando dois policiais oferecem um acordo para que ela entregue o bandido, a mulher decide enganar todos os envolvidos, levando a maleta de dinheiro e conquistando sua liberdade.

 

Jackie Brown (1997), de Quentin Tarantino
Fonte: YouTube – Jack Brown Official Trailer

Destaque ainda para a trilha sonora com grandes sucessos dos anos 1960 e 1970, como Bobby Womack and Peace (da obra Across 110th street) e Brothers Johnson: Strawberry letter 23 (produzido por Quincy Jones em 1977). Tarantino buscou homenagear os blaxpoitation movies, trazendo muito soul jazz e funk, gênero seguido por grandes nomes da música negra norte-americana como James Brown, Quincy Jones, Barry White e Marvin Gaye.

Tarantino vai usar os exploitation films uma reapropriação similar a realizada por Truffaut e Godard com o cinema de gênero norte-americano, em particular com a série B (grande parte do film noir é B) na chamada Nouvelle Vague. O filme ainda faz referência à abertura do filme A primeira noite de um homem  (The graduate, EUA, 1967), com Dustin Hoffman, em que ele chega ao aeroporto e procura um rumo à sua vida, mostrando o personagem em planos médio e travelling lateral. Assim como o personagem de Hoffman, ela busca um rumo para a sua vida.

Rumo também para a discussão de questões raciais, que ganhariam espaço nas décadas seguintes, como diretores como Spike Lee (Faça a coisa certa – 1985), Steve McQueen (12 anos de escravidão, 2013) e Ava DuVernay (Selma, 2015), mas que no gênero encontram sua expressão mais barulhenta e violenta, com seus diálogos bem-humorados sobre as banalidades da vida.

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