Neide Silva
Profa. Faculdade Drummond

A representação das populações negras como subalternizadas ou folclorizadas é resultado do racismo anti-negro que, ultrapassando o estágio de preconceito, transformar-se em discriminação racial, que são ações ou comportamentos adotados para prejudicar o outro, quando o racista externiza sua atitude em ações ou atos (CASHMORE, 2000, CONE, 2010).
A educação infantil no Brasil é um reflexo da sociedade racista e estudos como de Cavalleiro (2003) demonstraram que a criança negra recebe menos carinho e atenção do professor, que a criança não-negra; que essas crianças são excluídas das brincadeiras; recebem apelidos que as desumanizam; convivem com perversos “cantinhos da beleza”, em que, os cabelos “armados” são “presos” e pranchas de alisamento de brinquedo ditam as regras da beleza, além de, não se verem representadas nos contos de fadas e histórias infantis.
Considerando que a literatura recria a realidade a partir da visão de mundo do(a) autor(a) é fundamental que, na educação infantil, a literatura aborde a diversidade da população brasileira e que os(as) professores(as) estejam cientes da relevância de contar histórias com as quais crianças negras se identifique, como a literatura negro-brasileira.
Para Cuti (2010, p. 34), “[…] na literatura, por razões fundamentadas em teorias racistas, a eliminação da personagem negra passa a ser um velado código de princípios. Ou a personagem morre ou sua descendência clareia”. E para quebrar esse paradigma Cuti defende uma literatura negro-brasileira que caracteriza-se por apresentar: autoria de escritor(a) negro(a) que assuma posicionamento político e ideológico; apresentação da visão de mundo da população negra; utilização de uma linguagem marcada pelo empenho em buscar resgatar a memória negra; temática que incorpora a experiência do ser negro(a); visibilidade às marcas culturais e existenciais que identifica o ser negro(a); elaboração sob a perspectiva do oprimido/marginalizado(a); valorização da tradição, oralidade e ancestralidade, entre outros (CUTI, 2010; BERNARD, 1988).
Com o objetivo de identificar essas particulares em uma obra de literatura infantil, analisou-se o livro “Minha mãe é negra sim! de autoria de Patricia Santana, com ilustrações de Hyvanildo Leite.
O livro conta a história de Eno, um menino negro que, ao realizar uma atividade de pintura na escola, foi orientado pela professora de artes a pintar a mãe de amarelo “[…] que ficava mais bonito […]” (SANTANA, 2008, p. 6).
O garoto ficou muito triste, pois era negro e sua mãe também. Nesse dia chegou muito chateado da escola e não quis conversar com ninguém. Nos dias seguintes, o menino ficou calado, não queria ir para escola e nem se alimentava corretamente.
Somente quando o avô veio visitá-lo, Eno contou o que havia ocorrido. Depois de muito pensar, o avô contou sobre a história de luta e resistência do povo negro.
Após essa conversa, Eno teve orgulho de sua ancestralidade e resolveu voltar para a escola com um desenho de sua mãe pintada de preta.
O livro em análise é um material paradidático que permite discutir as relações étnicas no Brasil e a naturalização do racismo que se manifesta tanto por parte das crianças que lhe dão apelidos que o desumaniza, como por parte da professora que, ao dizer que de amarelo a mãe ficava mais bonito, indiretamente diz que ser preto(a) é feio(a).
Essas atitudes descritas revelam que crianças pequenas já apresentam uma visão negativa com relação aos colegas negros(as) e os educadores geralmente não percebem ou ignoram o conflito e não se dão conta de que as crianças negras vítimas de racismo tendem ao silenciamento.
Na história Minha mãe é negra sim!, Eno silencia-se e fica mais decepcionado com a atitude da professora do que a dos próprios colegas. A recuperação da autoestima da personagem só é possível graças à intervenção do avô que oralmente lhe transmite a história e tradição do povo negro, valorizando a resistência e luta de seus antepassados contra o racismo.
O livro pode ser identificado como literatura negro-brasileira porque é escrito e ilustrado por autora negra e ilustrador negro, que possuem um posicionamento ideológico de denúncia e combate ao racismo. Além disso, a temática da obra é justamente a naturalização do racismo e a tentativa de apagamento da população negra, tendo a população branca como referência de humanidade.
A visão de mundo da personagem principal é a de um garoto que se assume como negro e não entende por que não pode pintar sua mãe da cor preta. Trata-se da visão de mundo da criança oprimida e vítima do racismo desde tenra idade, que muitas vezes silencia frente às situações discriminatórias.
Como procurou-se demonstrar, o livro paradidático Minha mãe é negra sim! é um livro de literatura infantil, com uma discussão sobre um assunto pouco explorado nesse universo, que é o racismo, trata-se de uma produção da literatura negro-brasileira (CUTI, 2010) ou literatura negra. Com uma abordagem simples e contundente, o texto possibilita a pais e educadores refletir e buscar caminhos para combater o racismo desde a pequena infância.

Referências

CASHMORE, Ellis et al. Dicionário de relações étnicas e raciais. Tradução de Dinah Kleve. 2. ed. São Paulo: Selo Negro, 2000.
CAVALLEIRO, Eliane dos Santos. Do silêncio do lar ao silêncio escolar. São Paulo: Contexto, 2003.
COORDENADORIA DOS ASSUNTOS DA POPULAÇÃO NEGRA – CONE. Como reconhecer e como lidar com o racismo em suas diversas formas. São Paulo: Ibraphel, 2010.
CUTI [Luiz Silva]. Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.
SANTANA, Patricia. Minha mãe é negra sim!. Belo

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