Profa Esp. Maria Carolina Simões dos Santos

No primeiro semestre de 2017, estimulada pelas capacitações relacionadas à Monitoria, decidi por em prática um desejo antigo de proporcionar aos meus alunos intervenções de Musicoterapia Social em outros ambientes além da nossa clínica escola e, dentro deste projeto chamado “Liga das Intervenções”, contemplamos a possibilidade de amadurecer a parceria da Musicoterapia com o núcleo NERA.
Conheci a Prof.ª Dr.ª Maria Lúcia em 2016, por intermédio do Prof. Dr. Marcello Gabbay, e não me esqueço da sensação de felicidade e honra ao conhecê-la. Esta perdura até hoje.
Poder conhecer o NERA e, ainda mais, poder levar a música brasileira afrodescendente para dentro da faculdade foi um momento sublime e necessário. Entender que o espaço de estudo é um espaço de cultura, resgate e resistência, é entender que o estudo liberta.
A Musicoterapia se define por utilizar os elementos musicais para processos de desenvolvimento e saúde, para mobilizar, ressignificar e promover a expressão, pois compreendemos que a expressão é uma poderosa ferramenta de transformação intra e interpessoal.
A opressão relacionada ao racismo fere o indivíduo por completo, seu corpo, sua mente, suas emoções são corrompidas e sua expressão, muitas vezes, calada.
Coincidência ou não, o grupo formado para a Liga era composto por mulheres, de maioria negra. Foi quase que compulsório o olhar para este cenário: a musicoterapia precisa falar sobre as implicações do racismo na saúde e expressão dos indivíduos.
A cultura é uma poderosa ferramenta de acesso e a música, por sua vez, um elemento importante nas construções sociais e culturais. Nasce então o projeto “Música, Raça e Identidade – Intervenções Musicoterapêuticas para se opor ao racismo. ”
Esse projeto contempla intervenções de Musicoterapia com temáticas negras para, não somente tratar o tema dentro da faculdade, mas também para enaltecer a cultura negra através da música e principalmente alcançar o indivíduo, acolhe-lo e dar espaço para sua expressão, reflexão e reconexão com suas vertentes culturais/musicais.


O projeto, ainda piloto, se deu ao longo de um mês no Campus Ana Rosa da FIAM FAAM, no espaço destinado ao NERA e com salas de aula dos cursos de comunicação.
Ao todo foram propostas cinco diferentes intervenções com abordagens distintas: receptivas, canções, roda de tambores, dança. Em cada uma delas abria-se o espaço para reflexão e objetivos que iam desde melhora da interação grupal a o reconhecimento da própria identidade.
Para mim, o projeto em si já era uma vitória, então efetiva-lo e colher seus frutos e reverberações foi muito recompensador, colhemos histórias, emoções, conflitos e diálogos, certamente quem passou pelos encontros foi tocado, assim como nós.
E um dos frutos mais férteis que este projeto gerou, foi o grupo “Maria, Maria´s”, formado pelas alunas do projeto ao se organizarem para primeira intervenção, ele consiste em mulheres que cantam e tocam de forma poética músicas de autores negros e que em suas canções cantam a negritude e toda sua trajetória de luta.

Palavra de quem participa

“O processo que passamos com o surgimento do projeto, viabilizado pela monitoria, teve início quando fomos presenteadas com a notícia de que faríamos uma parceria com o Núcleo NERA. Quando nos debruçamos sobre a temática que abordaríamos, inevitavelmente fizemos uma reflexão sobre como o racismo se manifesta para cada uma de nós e em cada uma de nós. Elaboramos as intervenções com muita cautela e proximidade, inspecionamos cada detalhe para que nada passasse despercebido e o recado fosse dado, dizendo que o racismo é sobre todos, é sobre quem fere e sobre quem é ferido. As intervenções foram elaboradas para contar uma história e nós queríamos despertar nos participantes a seguinte reflexão: “quem sou eu dentro dessa narrativa? ”. Mesmo preparadas para todos os possíveis retornos, diversas vezes, fomos surpreendidas, por pessoas que realmente estavam abertas a pensar sobre o assunto, e tomar uma atitude quanto ao seu comportamento diante do tema abordado. Ser acessado por uma experiência musical negra, por essência, foi um baque para todos aqueles que se disponibilizaram para isso, nos deparamos com pessoas que ficaram felizes, em algumas intervenções, e outras vezes a experiência era como álcool em ferida aberta. Em resumo, encarar a responsabilidade de ações racistas, pode doer em diversos aspectos, mas, citando o trabalho de Viviane Mose, sabemos que há dores que são para caber mais mundo dentro de nós. ” – Maria, Maria´s – Amanda Pereira, Thais Cruz, Gabriella Fischer, Patrícia Vieira, Thayna Oliveira

 

Leave comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *.