Ivan Paganotti*

A eleição de Donald Trump nos EUA e o referendo sobre o Brexit, que definiu a saída do Reino Unido da União Europeia, foram mudanças radicais de curso em duas das maiores potências globais. Os eleitores pareciam ter decidido contra as previsões – e muitas recomendações – dos especialistas e da mídia.

Desde então, hipóteses diferentes tentaram explicar esse fenômeno. Para alguns, é uma reação a governos liberais anteriores, que ignoraram as demandas de grupos tradicionalmente influentes, receosos de perder sua influência – caso da população do interior dos EUA e da Inglaterra. Outros apontam os discursos intolerantes, mesclando xenofobia, misoginia, racismo e fundamentalismo religioso, que cativou diversos eleitores a convergirem para propostas que pareciam condenadas ao ocaso dos radicais mais extremistas.

Ao contrário das eleições anteriores, propostas moderadas parecem não ser mais privilegiadas pela remoção dos candidatos com discurso politicamente incorreto e ofensivo. Pelo contrário, esses discursos passaram a galvanizar diferentes grupos de ódio ao redor de propostas simplistas e polêmicas. Trump não deixou de ser eleito por seus comentários ofensivos contra mulheres, muçulmanos ou latinos. Ele pode ter sido escolhido justamente por causa desses discursos aos olhos dos eleitores que concordam com suas ideias discriminatórias.

Complementando essa hipótese populista-nacionalista que privilegiou candidaturas e propostas anti-establishment, é possível também apontar uma outra explicação complementar: eleitores e representantes políticos tem ignorado o debate calcado em fatos e privilegiam impressões, crenças e opiniões pessoais na hora de apresentar e debater suas propostas perante a opinião pública. Essa é a definição do fenômeno da pós-verdade, e durante essas duas votações em 2016 tornou-se evidente por um discurso explicitamente anticientífico (negando a responsabilidade humana sobre o aquecimento global, por exemplo) e pela profusão de informações falsas – com as fake news nas redes sociais.

Candidatos e seus militantes usam dados e fatos incorretos como forma de “provar” suas ideias e conquistar novos adeptos, e resistem a reconhecer o erro quando se demonstra a incorreção. Essa postura persiste mesmo após o fim do período eleitoral: no dia da posse de Trump, em 2017, seus assessores se recusam a corrigir uma declaração de que esse teria sido o evento com maior audiência, e defenderam-se dizendo que estão usando “fatos alternativos”[1].

Para a primeira hipótese, Trump e o Brexit foram vitoriosos porque ecoaram os preconceitos de parte considerável do público e prometeram devolver maior representação para parte dos eleitores incomodada com avanços de grupos minoritários. A igualdade parece um empecilho para quem quer a “América em primeiro lugar”. Mas de acordo com a segunda hipótese, essas propostas venceram porque mentiram e enganaram o público, ou apelaram para suas crenças, não para sua razão.

São dois fenômenos complementares, e é difícil determinar qual foi preponderante na definição de voto de milhões de eleitores. Mas a segunda hipótese é mais desafiadora: se até fatos e teorias científicas passam a ser alvo de contestação ideológica, como identificar elementos de concordância durante os debates? Sem esse mínimo denominador comum, como seria possível construir alicerces estáveis para as pontes entre posições políticas extremas?

A pós-verdade parece ser um desafio mais problemático porque recusa as próprias regras do debate calcado em argumentos fundamentados em fatos. Quem sustenta propostas radicais e discriminatórias deve saber que os fatos são seu calcanhar de Aquiles, pois podem demonstrar as falhas em suas crenças e sugerir perspectivas menos extremistas. O próprio funcionamento do debate público entre posições diferentes, mas calcadas em fatos, é uma ameaça para quem defende a discriminação, pois os fatos são a base da igualdade de condição entre os debatedores que constroem seus argumentos a partir das informações disponíveis e verificáveis por todos.

Não satisfeitos em apresentar pontos de vista sem fundamentação factual, os inimigos da verdade passam também a atacar quem defende fatos precisos. Nos últimos meses, organizações jornalísticas e, particularmente, agências de checagem têm sido vítimas de ataques e constrangimento por parte de grupos políticos[2]. Essa é uma reação às críticas apresentadas pelos jornalistas, que apontam as falhas e incorreções factuais nas publicações desses grupos[3].

Quem teme os fatos reage contra os jornalistas que contestam discursos sem sustentação. Mas vale lembrar que não são só os jornalistas que sofrem com esses ataques: ignorando os fatos, podemos comprometer nosso processo de tomada de decisão e ameaçar o próprio debate democrático. As consequências caem sobre todo o público, que terá dificuldade para separar quem pretende apresentar as melhores informações possíveis e quem só consegue vencer um debate enganando.

* Professor do Mestrado Profissional em Jornalismo FIAM-FAAM Centro Universitário

[1] https://edition.cnn.com/2017/01/22/politics/kellyanne-conway-alternative-facts/index.html

[2] http://abraji.org.br/noticias/grupos-promovem-ataques-virtuais-a-agencias-de-checagem-de-fatos

[3] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/18/actualidad/1526600912_648575.html?%3Fid_externo_rsoc=FB_BR_CM

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