Por Rachel de Brito*

Cabelos lisos, pele escura, seios fartos e abertos para o mundo, os olhos mel esverdeados e uma personalidade forte. A conheci há cerca de 10 anos e a primeira imagem que tenho dela é muito parecida, mas também completamente diferente da que me lembro nas últimas vezes em que a vi; empoderada, com o black solto e a alma livre para educar sobre a história negra.

Quando conversamos, de fato, pela última vez, ela tinha acabado de voltar de uma viagem de estudos para os Estados Unidos e estava indo fazer o exame admissional para trabalhar em um restaurante australiano. “Eu preciso ajudar em casa e agora não está na época de contratarem professores”, foi o que ela me disse. “Mas vou continuar procurando”. Depois disso fiquei sabendo que ela conseguiu uma vaga no SENAC e que entre as duas vezes em que ia ministrar aulas durante a semana, dedicava seu tempo à tese de doutorado em que estava trabalhando, “Sociabilidades Africanas na Cidade de São Paulo”.

Entre todos os títulos que colecionava estava o de mestre em história social, palestrante sobre cultura africana e afrodescendente no Brasil, pesquisadora associada ao Centro de Estudos das Culturas Africanas e da Diáspora, coordenadora na Fundação Paulistana de Educação, Tecnologia e Cultura, professora orientadora de TCC e tutora nos cursos de pós-graduação em Promoção da Igualdade Racial pela UNIFESP, parecerista da Revista Epígrafe (USP) e pesquisadora voluntária no Samuel Proctor Oral History Program in the University of Florida.

A história de Sheila começou há 37 anos, mas nem sempre esteve tão próxima aos debates sobre negritude. Sueli Aparecida Gomes da Silva (58) é mãe de Sheila e professora de história aposentada; sempre ensinou as três filhas sobre família, organização, liberdade e criticidade. “A gente assistia comercial fazendo críticas”, conta; “mas a história negra não era algo que a gente falava em casa”. Sueli explica que o primeiro contato de Sheila com o assunto foi no curso de Administração, na Faculdade Zumbi dos Palmares. “Lá ela teve a matéria História Econômica do Negro no Brasil e desde então começou a frequentar eventos e palestras sobre o assunto até que se interessou pela história dos negros no nosso bairro”; assunto esse que rendeu a Sheila a monografia Negros em Guaianases: Cultura e Memória. “O objetivo dela era dar visibilidade aos negros na história do Brasil”, diz a mãe.

No processo de descobrimento das origens negras no bairro onde morava, Sheila também descobriu sua própria ancestralidade e ajudou na descoberta de outros. Shirley Alice Gomes da Silva (34) é a irmã do meio de Sheila e conta que o processo de empoderamento pelo qual passou teve muito a ver com a irmã mais velha. “Quando a Sheila cortou o cabelo bem curtinho para fazer a transição [do liso], eu achei feio. Mas ela sempre ficava me dizendo para parar de alisar o cabelo e eu achava que o liso combinava mais comigo, não que só isso tenha me feito mudar, mas a cada vez que ela falava essas coisas era uma gotinha que ia somatizando dentro de mim. Hoje eu entendo que se eu nasci com o cabelo crespo é porque é o crespo que combina comigo.”

A paixão da historiadora por sua ancestralidade era tão grande que, por volta de oito anos atrás, a jovem foi pela primeira vez para a África com uma comitiva de brasileiros em viagem missionária. E, como de costume, a viagem lhe rendeu grandes amigos, entre eles o angolano Wilson Bento (32). “A Sheila, na verdade, foi minha a melhor amiga e eu acredito que eu também fui o melhor amigo dela. Tanto que a distância entre Brasil e Angola não foi capaz de diminuir algo tão intenso.” Em julho deste ano, Wilson esteve no Brasil e recorda os últimos momentos que passou com a amiga. “Quando eu me despedi para voltar para Angola, foi um dia muito alegre; ela estava muito feliz. Nós ficamos em casa, ela fez uma comida, nós dançamos, brincamos, rimos das nossas memórias e depois oramos juntos. Foi um dia muito especial e eu não conseguia perceber que estávamos a nos despedir.”

Além da relação que tinha com a academia, Sheila era uma pessoa cativante, rodeada de amigos; incluindo Dayane de Lima Cruz Silva (25). “Se hoje eu sou quem sou é porque aprendi muito com ela. Eu ainda tinha muito para aprender, mas sou grata por todos os momentos [que passamos juntas]”, diz a contadora que, na despedida da pesquisadora, recebeu um porta retrato que a mesma guardava no carro com uma foto junto da amiga. Sheila era uma pessoa muito séria, mas sempre gostou de dar significado emocional para as coisas. “A primeira impressão que tive dela era de uma pessoa inteligente e séria. Mal sabia eu quantas risadas nós daríamos”, relembra. “Tinha momentos em que parecíamos duas adolescentes, mas ao mesmo tempo ela era super madura; uma mulher que as pessoas paravam para admirar.”

 

“Se hoje eu sou quem sou é porque aprendi muito com ela. Eu ainda tinha muito para aprender, mas sou grata por todos os momentos [que passamos juntas]”

 

Sheila Alice Gomes da Silva faleceu em 15 de agosto de 2018 devido a um coágulo que se criou na perna e logo se tornou uma embolia pulmonar. “Nessas jornadas longas de dar aulas e trabalhar no doutorado, estávamos no automático e não percebemos antes”, explica a mãe da família Silva. A jovem partiu deixando duas irmãs, pai, mãe, namorado, planos e uma legião de amigos, dentre os quais “inteligente”, “franca”, “crítica”, “empoderada”, “hospitaleira”, “amorosa”, “dedicada”, “justa” e “incentivadora” são qualidades recorrentes para definir sua personalidade.

Christian Tito Pizarro (36) é peruano, estava em um relacionamento com a historiadora e conta que conheceu a jovem em Cusco (Peru) há cinco anos durante o período de férias. “Minha primeira impressão da Sheila foi de uma pessoa muito doce. Ela era inteligente, de caráter forte e nós estávamos apaixonados.” Sueli Aparecida conta que a filha mais velha não tinha interesse em um relacionamento com o rapaz, mas que – com o tempo – eles passaram a trocar mensagens pela internet e surgiu um interesse amoroso. Christian esteve no Brasil em julho e planejava casar e levar Sheila para morar no Peru com ele enquanto ela terminava sua tese de doutorado.

Entre todas as memórias que permeiam o período de um mês desde a despedida de Sheila Alice, Luíz Ricardo da Silva (64), pai, relembra: “As pessoas dizem que ela teve uma vida curta, mas a minha filha teve uma vida inteira. Uma vida inteira pode ser um minuto ou cem anos e a vida inteira dela foi de 36 anos”, conta com os olhos marejados e focados no horizonte. A jovem tinha uma relação muito próxima com a família e, durante nossa conversa, o pai lembra-se dos domingos que saía para andar de bicicleta com as filhas. “É incrível, a Sheila era boa em tudo o que fazia; ela era atlética e sempre queria ser boa em tudo para extrapolar as suas potencialidades”, comenta Shirley sobre as lembranças do pai.

Sheila era o tipo de pessoa que fazia acontecer; onde quer que passava era percebida; fosse por seu lado artístico, seu conhecimento, sua criatividade ou sua criticidade. As pessoas sabiam que ela existia, sua voz preenchia o ambiente. Sheila queria ser agente de transformação; ela tinha urgência nisso; e, de fato, foi.

*É aluna do sexto semestre do curso de Jornalismo e Monitora da Agência Integrada de Comunicação (AICom).

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