Importância do diálogo no combate à desigualdade de gênero foi tema no evento que ocorreu em março, no Auditório Ibirapuera

Texto e Fotos: Aline de Campos*

Como conversar com alguém que pensa muito diferente de você em relação a gênero foi o tema do 6º Fórum Fale Sem Medo, uma iniciativa do Instituto Avon. O evento aconteceu na última sexta-feira de março (29) no Auditório Ibirapuera — Oscar Niemeyer, em São Paulo, e contou com a participação de ativistas, especialistas e pesquisadores de diversas áreas que defendem a equidade de gênero.

O Fórum Fale Sem Medo, desde sua primeira edição no ano de 2013, propõe o diálogo como ferramenta de articulação e apresentação de experiências inovadoras no enfrentamento de violências contra mulheres e meninas.

Logo no salão de entrada, a exposição Você não está sozinha chamava a atenção por retratar a violência contra a mulher por uma outra perspectiva. Objetos comuns nos lares, como panela, vassoura, taça, salto alto e até um ursinho, tornaram-se sujeitos e interlocutores. Com textos profundos narravam situações de violência que presenciaram contra mulheres.

“Quisemos mostrar às mulheres que mesmo que a única testemunha não possa ajudar, elas não estão sozinhas e por isso a importância de redes de apoio para fortalecê-las”, explicou Júlia Machado, responsável por criar os textos da exposição. Para o diretor de arte responsável, José de Oliveira, sua prioridade durante a execução foi realizar um trabalho protagonizado por mulheres: “Eu fiquei muito feliz com o meu dia de minoria. São histórias de mulheres feitas por mulheres. Tive a preocupação que o elemento mais forte seja o texto, sem nomear os personagens, para que houvesse a identificação do público”, diz.

Levantou do sofá bruscamente.
Quis saber aonde ela iria daquela maneira. E o que ela estava querendo vestida daquele jeito.
A empurrou, fazendo com que ela torcesse o pé e caísse naquele mesmo corredor onde costumávamos passear juntos. Ficamos ali.
Jogados no chão.
Enquanto ele continuava gritando.
Salto

O Fórum teve início no período da manhã com uma atividade fechada apenas para a imprensa. A abertura ficou por conta da psicóloga e ativista Mafoane Odara seguida da apresentação da pesquisa realizada em parceria com o portal Papo de Homem. Guilherme Valadares apresentou aos convidados os resultados da pesquisa que tinha por objetivo entender se e como os brasileiros têm dialogado com pessoas que pensam diferente. “A partir dos dados coletados separamos as pessoas em três grupos: os construtores de pontes que estão engajados em furar as bolhas (15%), em trânsito (50%) e entre muros que são as mais resistentes em abrir uma discussão espontânea com os diferentes (35%)”.

Alunos do curso de Relações Públicas estiveram presente na mesa da manhã com a professora Nadini Lopes

Um dado interessante foi o fato de termos mais em comum com nossos diferentes do que imaginamos. De acordo com o levantamento que ouviu mais de 9 mil pessoas do Brasil todo com idades entre 18 e 59 anos e que tenham acesso à internet, 70% do público que se identifica com pautas feministas assume não procurar conversar com pessoas que pensam diferente contra 80% de pessoas declaradas não-feministas.

As pessoas também foram questionadas se consideram importante debater gênero e feminismo com os diferentes, o resultado foi de apenas 44%. Ao serem questionadas sem a utilização dos termos feminismo e gênero, ou seja, foram utilizados conceitos sem nomeá-los, o número saltou para 77% das pessoas considerando valer a pena.

Mulheres homossexuais até 29 anos apresentam o maior percentual entre as pessoas que dizem fazer questão de dialogar com pontos de vista contrário. Um dado destacado por Guilherme como preocupante foi o fato de que apenas 1% dos entrevistados reconhece não saber o que é feminismo, visto que entre os motivos mais citados como dificultadores do diálogo são agressividade em 1º lugar e radicalismo em 2º. A pesquisa completa está disponível em www.papodehomem.com.br/pontes.

Guilherme apresenta pesquisa do Papo de Homem

Falamos com Mafoane Odara sobre a atuação de mulheres negras na luta por equidade de gênero, questão bastante discutida nos movimentos feministas. Para ela, deixar o recorte racial de fora do debate é deixar de fora uma parte da nossa identidade que é fundamental e em especial para o tema proposto no evento. “No Brasil os temas de gênero e raça são estruturantes. Brancos e negros adoecem de formas diferentes e brancos e negros morrem por razões diferentes. Respeitar os direitos de cada um só é possível quando a gente reconhece as identidades dessas pessoas”, ressalta.

Ainda na parte da manhã, Ana Carolina Querino, representante da ONU Mulheres no Brasil, dissertou sobre o poder da empatia para possibilitar uma abertura de diálogo com o diferente. Encerrando o primeiro período de atividades, uma mesa de debate tratou da importância das narrativas adotadas nas redes sociais e por jornalistas.

Flávia Dória, CEO do Alanalab, núcleo de negócios do Instituto Alana, destacou que a produção de conteúdo deve ser realizada como “ferramenta de informação e de construção de pontes”. Dennis de Oliveira, professor do ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP), falou sobre a função da atividade jornalística na abordagem de temas como gênero e exclusão e ressaltou que “tratar os desiguais como iguais é manter a desigualdade”. “O consumo rápido de informação faz com que nós nos sintamos contextualizados sobre tudo, quando com apenas algumas palavras mal utilizadas são capazes de já encerrar um diálogo por serem gatilhos para quem já tem um conceito fechado sobre determinado assunto”, salientou Renato Dolci, especialista em Big Data, análise de dados nas redes sociais e sócio do banco BTG Pactual.

Os convidados do bate-papo, mediado por Laura Ancona, editora-chefe da revista Marie Claire Brasil, responderam perguntas acerca da histeria nas redes sociais, destacaram a importância de suspender julgamentos e ironias a fim de levar o outro a pensar. Ainda, destacaram que é fundamental que saibamos separar o que é convicção do que é preconceito.

As atividades na parte da tarde foram conduzidas pela jornalista Aline Midlej com abertura da poetisa Ryane Leão. Özlem Cekic, ex-parlamentar dinamarquesa, palestrou sobre meios de dialogar com pessoas que pensam diferente e após participou do bate-papo com Luiza Trajano, presidenta do conselho de administração do Magazine Luiza, e Antônia Pellegrino do Agora É Que São Elas. O evento teve encerramento com o show de Karol Conká.

*Aline de Campos é formada em Jornalismo pelo Centro Universitário FMU FIAM FAAM e escreveu esse texto especialmente para a Dumela.

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