A entrada dos negros na Universidade é fascinante, fantástica e desafiadora

Por Giovanna Siqueira**

Em 31 de julho de 1959, na Vila Mazzei, zona norte de São Paulo, Juarez Tadeu de Paula Xavier vinha ao mundo. Nascido em uma família negra e pobre, sua mãe era empregada doméstica e seu pai caminhoneiro.

Quando criança, seu pai ficou preso durante um tempo, no presidio de Taubaté. Depois de solto, voltou para São Paulo e em um certo dia,durante um conflito no Mercado Municipal de São Paulo, foi assassinado. “Foi um choque, porque ler uma notícia no jornal falando do seu pai ‘Bandido é morto pela polícia’ é horrível, um choque.”, lembra Juarez.

Juarez estudou até a quarta série, ficou dos 10 aos 17 anos sem estudar. Nessa época trabalhou em uma banca de jornal, quando teve seu primeiro contato com o jornalismo. Depois, trabalhou em uma quitanda, momento em que ganhou seu primeiro livro do Sr. Anísio, seu chefe, dono da banca de jornal e quitanda.

No ano de 1975, houve um acontecimento trágico em seu bairro, três jovens foram assassinados e um deles era muito amigo de Juarez. Sua mãe preocupada com o que podia acontecer, o internou em uma casa de Candomblé. Após este período, Juarez, com seus 18 anos, trabalhou em uma fábrica e terminou seus estudos. Logo após, começou a fazer curso pré-vestibular e se iniciou no movimento negro. Prestou o vestibular para história, na USP, e jornalismo, na PUC. Passou nas duas universidades e optou por seguir jornalismo.Dois anos depois foi eleito o Presidente do Diretório Central dos Estudantes Livres, da PUC, formado por jovens negros e algumas japonesas.

Crédito: arquivo pessoal

Juarez participou de muitos movimentos, representou os jovens negros da universidade, participou de muitos protestos, passeatas, debates políticos e grandes eventos. Ele trancou a faculdade por várias razões e, uma delas, foi para se tornar um militante profissional. “Eu saí do trabalho e virei um militante profissional. Não me arrependo pelo aprendizado, era um momento importante, final da ditadura e todos os esforços valeram a pena, mas para um jovem negro é diferente. O jovem branco sai da universidade e vai construir sua vida e o jovem negro precisa construir a vida da sua família. Eu não faria isso hoje, com certeza.”

Juarez conseguiu retornar ao curso de jornalismo, mas não tinha condições de pagar. Entrava num dilema: era necessário o diploma para trabalhar como jornalista profissional, mas lhe faltava dinheiro para isso. Então, o Sindicato dos Jornalistas fez uma carta para Juarez, o declarando jornalista. Desde, então, trabalha nesta área. Trabalhou como assessor, professor e revisor de jornal. Mesmo com a correria do dia a dia, sua militância era constante,participou da Corrida da Coordenação Executiva das Organizações Negras, Marcha Zumbi e outros inúmeros encontros e movimentos.

Em 1995, o Brasil entrou em um debate muito rígido sobre a questão racial. Juarez achava que podia ajudar de alguma forma. “Eu achava que a minha formação política era boa e importante, mas queria ter uma formação acadêmica.”, então ele retornou para a sala de aula e terminou sua pós-graduação, mestrado e doutorado.

Família

Em uma das reuniões sobre o Movimento Negro, na Câmara Municipal, Juarez conheceu o amor da sua vida, Patrícia. Os dois eram assessores de vereadores. “Lembro que quando eu a vi entrar na sala de reunião, falei: ‘Pô, vou casar com essa mulher’ e casamos mesmo.”

Começaram a morar juntos em 1997 e em 2017 se casaram oficialmente no Candomblé. Eles têm uma filha, chamada Bolají, de 21 anos. Patrícia, sua esposa, é mestre e está produzindo sua pesquisa para o doutorado. Bolají, está no terceiro ano da graduação de História e assim como o pai, vive intensamente a universidade, participa dos debates políticos e de um grupo de pesquisadoras negras.

crédito: Arquivo pessoal

Ao falar de sua família, Juarez abre um sorriso de felicidade e orgulho. É nítido que ele ama incondicionalmente sua esposa e filha. “O que eu mais gosto de fazer é estar com a minha família, aprendo muito com elas. ”

Unesp e Sistema de cotas

Juarez nunca tinha trabalhado em uma universidade pública, mas em 2010 realizou o concurso para entrar na Unesp e passou. Em 2011 já era coordenador do curso de Jornalismo, criou um Núcleo de Estudos e em 2013 se tornou chefe de Departamento na Universidade. Desde então, trabalha na Unesp.

Em 2013 a faculdade adotou o sistema de cotas. Os negros começaram a entrar na universidade, os enfrentamentos aumentaram e os ataques da supremacia branca se intensificaram. No ano de 2015, houve uma intervenção no banheiro da instituição, onde picharam “Juarez macaco”, um ato totalmente racista. “Quando soube do que aconteceu, chamei os alunos e disse: Precisamos politizar isso e sermos intolerantes com a intolerância. Não é uma pichação, e sim, uma intervenção. Então, começamos a denunciar. Fizemos várias atividades políticas, denunciamos na polícia e fizemos congregações abertas para discutir o assunto.”

Passada a polêmica, Juarez foi convidado para discutir sobre as ações da Reitoria anterior e ajudar nas decisões da década do afrodescendente. Ele se integrou à Comissão na Universidade e realizou seu primeiro trabalho com a Reitoria. Assumiu a presidência da Comissão que estudava as relações étnicas raciais. O objetivo era averiguar se havia fraudes nas declarações de pretos e pardos, então em 2016, formou-se a primeira comissão de verificação das cotas da universidade.

Juarez era coordenador geral do Núcleo Negro Unesp para Pesquisas de Extensão (Nupe). Ao longo de 2017, foi convidado pelo Reitor, para ajudar no debate sobre a Diversidade na Universidade. Foi chamado para ser assessor da Pró Reitoria de extensão, uma de suas funções atualmente, e desde essa época, realiza diversos debates na faculdade.

Em 2017, fizeram a primeira averiguação das cotas, com representantes da Vunesp (Instituição que promove o vestibular na Unesp), Prograd (Pró-reitoriade Graduação) e dos Movimentos Negros. Analisaram e produziram um documento, dizendo que havia fortes indícios de fraudes no sistema de cotas da Universidade. Criaram as Instruções Normativas para o processo e começaram a averiguar oficialmente em 2018.

São três fases de verificação e neste ano já analisaram mais de 1.300 casos e desligaram 27 alunos da universidade. “Dá trabalho, mas é ágil e não tira o direito dos alunos, que é o fator mais importante. Está sendo uma experiência muito boa e rica, todos os nossos esforços, fizeram com que 50% de mulheres ingressaram esse ano na universidade, dos 6.300 alunos pretos e pardos, nós confirmamos a declaração de 800.”, disse Juarez.

Juarez atua como assessor da Pró-reitoria de extensão, tem responsabilidades de gestão dentro da Universidade, cuida dos cursinhos pré-vestibulares, das empresas juniores e do Nupe. O Nupe representa a faculdade, então ele possui responsabilidades políticas e essa é uma das funções sobre a questão étnica e racial. “É o que eu tenho feito para uma pequena contribuição do debate racial no Brasil e na nossa universidade. A universidade incomoda porque cumpre um papel fundamental na sociedade moderna. Ela forma quadros para o estado, mercado e a sociedade civil. ”

Se hoje, um jovem negro consegue ingressar na Unesp, pelo sistema de cotas, com certeza o Juarez tem grande participação. Sem ele e a equipe, as chances seriam menores.

“As pessoas resistem ao debate político étnico-racial na universidade porque tem a dificuldade de entender que os negros chegaram para ficar. Acho que estou dando uma colaboração, sou militante do movimento negro e tenho muito orgulho, milito com paixão e vontade. Entendo perfeitamente a questão do racismo e como ele procura destruir os negros em áreas estratégicas da vida, mas nós precisamos resistir.Nossa responsabilidade é fazer enfrentamento.”, declara Juarez, com sua fala calma e convicta.

crédito: Arquivo pessoal

*Queremos registrar nosso respeito e admiração pelo professor Juarez, além de endossar nosso repúdio ao ato racista sofrido pelo professor recentemente.

**Estudante do sexto semestre do curso de Jornalismo. Produziu o texto originalmente para a disciplina Produção de Revista.

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