Renato G. Filho*

A música independente não é uma novidade no Brasil. O que hoje ouvimos falar sobre a produção independente não poderia existir se não fosse o trabalho pioneiro de artistas que, no início da década de 1980, desbravaram caminhos à margem da grande indústria fonográfica. Em 2019, comemoraríamos os 70 anos de um dos principais pioneiros da música independente brasileira, Itamar Assumpção.

A Música Popular Brasileira (MPB), no final da década de 1970, estruturava-se a partir de três movimentos que nasceram paralelamente à ditadura militar iniciada em 1964 e a era dos festivais, a saber: a música nacional-popular (nas figuras de Geraldo Vandré, Edu Lobo e Nara Leão), a jovem guarda (Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa) e o tropicalismo (Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa). Artistas de grande projeção figuravam no elenco de gravadoras multinacionais que chegavam ao Brasil e enxergavam no país um grande e lucrativo mercado de disco.

No início da década de 1980, à margem de toda e qualquer imposição mercadológica que poderia ser ditada pelas gravadoras, uma nova cena surgia em São Paulo ao redor da Lira Paulistana, um teatro localizado no bairro de Pinheiros. Em 1980, Itamar Assumpção, artista nascido em Tietê, no interior de São Paulo, lançava seu primeiro disco, Beleléu, Leléu, Eu, pelo selo independente do teatro. Ao lado de Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Luiz Tatit, Ná Ozzetti, entre outros jovens artistas, Itamar desbravou a forma de produção “às próprias custas”, termo que dá título ao seu segundo LP, de 1981.

O local à margem da grande indústria, de certo modo, deu a Itamar a liberdade da experimentação e da invenção. Livre das amarras mercadológicas, que ditariam como deveria ser uma canção ou um disco voltados ao seu consumo em massa, o compositor criou projetos totalmente ousados, como o lançamento simultâneo de três volumes de um só disco, Bicho de 7 cabeças (1993), que foi assinado por Itamar e pela banda Orquídeas do Brasil, composta apenas por musicistas mulheres, e um disco dedicado à obra de Ataulfo Alves (1996). Outro ambicioso projeto foi Pretobrás – Por que que eu não pensei nisso antes? (1998 – 2010), cujos volumes 2 e 3 sairiam somente após a sua morte precoce, em 2003.

O racismo estrutural na sociedade brasileira parece também ter o colocado diversas vezes à margem. Como relembra uma de suas filhas, Anelis Assumpção, no documentário Daquele instante em diante (2018), dedicado à vida e obra do artista, as constantes abordagens feitas pela polícia deixaram marcas profundas em sua vida.  As questões da negritude, embora não tenham sido centrais em sua obra, perpassam algumas de suas canções: “eu tenho o cabelo duro mas não o miolo mole, sou afrobrasileiro puro, é mulata a minha prole” (“Cabelo duro”); “tenho o sangue quente, não uso pente, meu cabelo é ruim” (“Nego dito”); “a textura brasileira é impura mas tem jogo de cintura” (“Cultura Lira Paulistana”).

Suas aproximações ao grande mercado se deram em momentos pontuais da carreira, mas são dignas de nota. Em 1984, no auge do movimento pelas Diretas Já, impactado por “Fullgás”, de Marina Lima e Antonio Cicero, Itamar decidiu montar um show em cima dos sentidos políticos da canção: “você me abre seus braços e a gente faz um país”. Em 1993, compôs “Só vejo azul” com Rita Lee, que, em troca, participou da faixa “Venha até São Paulo” (Itamar Assumpção), do disco Bicho de 7 cabeças I, de Itamar.

Na única vez em que teve um disco seu editado por uma grande gravadora, a Intercontinental, Itamar criou o disco temático Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!!!! (1988). Usando como matéria-prima as práticas administrativas da indústria fonográfica, criou as vinhetas “Pesquisa de mercado I, II e III”. Canções como “Sutil” e “Mal menor” ganharam um enquadramento radiofônico, direcionando a poética do artista para fins mercadológicos, trazendo refrões melódicos e harmonias clássicas de hits

Dono de uma incansável mente criativa, Itamar deixou diversos escritos e rascunhos de letras e canções, reunidos e lançados pelo Itaú Cultural no volume Cadernos Inéditos, e, em diversas passagens, refletiu a própria condição da atuação profissional de um artista, tema das canções “Vida de artista” (“na vida sou passageiro, eu sou também motorista”) e “Prezadíssimos ouvintes” (“já cantei num galinheiro, cantei numa procissão, cantei ponto de terreiro, agora quero cantar na televisão”). Em diálogo com a poesia, Itamar assinou composições com Paulo Leminski (“Dor elegante” e “Filho de Santa Maria”) e Alice Ruiz (“Milágrimas” e “Tristeza não”).

Se, em vida, Itamar não conseguiu alcançar o grande público, hoje ele é reverenciado pela nova geração de músicos independentes que nele enxergam uma referência fundamental. São exemplares as regravações de Liniker (“Fim de festa”), Teto Preto (“Já deu pra sentir”), Metá Metá (“Tristeza não”), Tono (“Nega música”) e Criolo (“O tempo todo”), artistas e grupos nascidos em uma nova era em que a internet facilitou a produção e a circulação de seus trabalhos independentes. No ambiente universitário, sua obra tem ganhado a atenção de artigos científicos, dissertações de mestrado e teses de doutorado em diversas áreas do conhecimento, como a musicologia, a história e os estudos literários. Há muito ainda para aprendermos, reverenciarmos e descobrirmos Itamar, uma fonte inesgotável de criatividade e música.

* Doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e mestre em Filosofia pelo IEB-SUP. Autor do livro “Nós duas, as representações LGBT na canção brasileira” e colaborador da Revista Bravo!.  

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