Eduardo Viné Boldt *

Em Agosto de 2019, mais especificamente no dia 19, a fotografia, essa técnica de capturar a luz e produzir registros em forma de imagens, completou 180 anos.

Nos últimos dois anos tenho pesquisado a fotografia através de seus realizadores. O recorte que procurei me debruçar foi o que discute os trabalhadores da fotografia. Foi um percurso interessante, no qual busquei compreender a formação dessa atividade dentro dos veículos de comunicação, ao longo do tempo, e como essa atividade se modificou com as evoluções tecnológicas e com as mudanças no mundo do trabalho. Para tanto, fui investigar como nasceu o ofício de fotógrafo, sobretudo em seus primórdios, no século XIX.

A fotografia nasce em berço europeu, e logo se expande para a América, se popularizando inclusive nos Estados Unidos. No Brasil, o jovem entusiasta Dom Pedro II também fotografou nesses primórdios. O que se pôde perceber que, nesse alvorecer do invento fotográfico, a técnica de registrar a “realidade” era basicamente monopolizada por brancos, homens de ascendência europeia. Mas a curiosidade me fez pesquisar quando as mulheres e sobretudo, os negros, passaram a exercer essa atividade.

Mulheres nos primórdios da fotografia

Registros fotográficos realizados por mulheres existem desde a segunda metade do século XIX. Essas realizadoras passaram a exercer funções nos estúdios fotográficos, primeiramente como assistentes (muitas vezes de seus próprios maridos), e depois como fotógrafas. Faziam parte de “clubes de fotografias”, onde, de maneira amadoras, realizavam experiências fotográficas. Não subestimem o caráter amador da atividade realizada por essas fotógrafas: elas eram extremamente talentosas, e fizeram trabalhos relevantes em seu período.

O pudor dos novecentos favoreciam, em parte, a presença feminina nos estúdios: para realizar retratos, muitas vezes era necessário que o fotógrafo tocasse em suas modelos, afim de posicioná-las para os retratos. Esse papel era delegado muitas vezes às mulheres, evitando assim o contato entre o retratista e a retratada.

Podemos destacar fotógrafas como a alemã Bertha Wehnert-Beckmann (1815–1901), considerada por muitos a primeira fotógrafa a exercer atividade profissional, ou a francesa Marie Lydie Cabanis (1831-1918), que junto com seu marido registraram um dos mais importantes acervos iconográficos do Oriente Médio a partir de Beirute, no final do século XIX. Ou ainda a britânica Julia Margaret Cameron (1815-1879) que já na década de 1860 pensava em aproximar a fotografia as artes plásticas através de seus retratos das celebridades da época. Ainda que poucos, encontramos relatos e registros de mulheres desempenhando o ofício como fotografas já no século XIX. Mas e os fotógrafos negros? Onde eles estavam naquele período?

Os fotógrafos negros do século XIX

 Não é fácil encontrar fotógrafos protagonistas negros no século XIX. Os motivos são claros: nas Américas existia um processo de escravidão que se espalhava de Norte a Sul de nosso continente. Ainda assim conseguimos ver registros de fotógrafos afro-americanos desempenhando papéis de destaque. A pesquisadora e artista norte americana Deborah Willis dedicou sua carreira a levantar registros desses fotógrafos que o tempo e a história oficial fizeram questão de esquecer. O resultado desse trabalho resultou em diversos livros publicados pela autora, entre eles “Reflections in Black: A History of Black Photographers, 1840 to the Present” (inédito no Brasil).

O livro resgata a história desses fotógrafos precursores que no limiar da fotografia já desenvolviam seus trabalhos profissionais. Jules Lion (1809-1866) era um deles. Fotógrafo de origem francesa, ele migrara para a então pujante cidade de Nova Orleans (cidade originalmente fundada também por franceses) no final da década de 1830. Já em 1840 monta seu estúdio fotográfico na capital do estado de Lousiana. Ainda que sua ascendência negra gere controvérsias até hoje, diversos registros da cidade apresentam seu nome acompanhado da sigla f.m.c., que significa free man of color.

Outro fotógrafo pioneiro e importante foi Augustus Washington (1820-1875). Natural de Nova Jersey, ele nasceu como uma “pessoa livre de cor” (free person of color). Chegou a ingressar na Universidade de Dartmouth, em New Hempshire, no início da década de 1840. Não chegou a terminar seus estudos, mas a vivência que teve na academia foi suficiente para que ele aprendesse as técnicas necessárias para fotografar através dos daquerreótipos (o processo fotográfico naquele período). Chegou a ensinar jovens estudantes negros a fotografar antes de montar seu próprio estúdio em 1846. Washington era um ativista da causa negra, quase cem anos antes das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. Em 1853 ele se muda para a Libéria. Como abolicionista que era, acreditava que os cidadãos afro-americanos deveriam formar sua própria colônia em um país africano.

Outro fotógrafo pioneiro e importante foi Augustus Washington (1820-1875). Natural de Nova Jersey, ele nasceu como uma “pessoa livre de cor” (free person of color). Chegou a ingressar na Universidade de Dartmouth, em New Hempshire, no início da década de 1840. Não chegou a terminar seus estudos, mas a vivência que teve na academia foi suficiente para que ele aprendesse as técnicas necessárias para fotografar através dos daquerreótipos (o processo fotográfico naquele período). Chegou a ensinar jovens estudantes negros a fotografar antes de montar seu próprio estúdio em 1846. Washington era um ativista da causa negra, quase cem anos antes das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos. Em 1853 ele se muda para a Libéria. Como abolicionista que era, acreditava que os cidadãos afro-americanos deveriam formar sua própria colônia em um país africano.

Mas e no Brasil? A história do registro etnográfico nos deu um dos trabalhos mais emblemáticos sobre a escravidão nos trópicos. Albert Henschel (1827-1882) foi um fotógrafo alemão que se dedicou a registrar os africanos e afro-americanos já residentes aqui no Brasil. Ainda que o trabalho desde alemão tenha sua importância etnográfica, nos faltava um registro de um fotografo negro que nascera aqui.

Acervo Pesquisador

Foi quando me deparei com José Ezelino da Costa. Nordestino, negro, filho de Bertuleza Maria da Conceição, uma escrava alforriada (e de pai desconhecido), nascera em 1889 no sítio de Umbuzeiro, nas proximidades da cidade de Caicó, no Rio Grande do Norte. Seu primeiro contato com a fotografia veio através do presente de um de seus vizinhos. A partir de então, nunca mais deixou de fotografar.

José Ezelino construiu uma sólida carreira como fotógrafo, mesmo estando longe de um grande centro urbano. Ele conseguia imprimir autoria em suas imagens, se apropriando de uma suave luz difusa em seus retratos, que diferenciavam das marcadas luzes duras características do sertão do Seridó. Em suas imagens pode-se ver também uma preocupação de registrar sua família e outros afro descendentes emretratos que os mostrasse em trajes sociais e poses austeras, e não em trabalhos forçados e degradantes como a maioria dos registros realizados no final do século XIX.

O fotógrafo faleceu em 1952, deixando um acervo de mais de dez mil imagens. Sua memória foi resgatada por duas pessoas: a pesquisadora Eugenia Maria Dantas, através de sua tese de doutorado, e de Ângela Almeida, que fez a curadoria de sua exposição, em 2017, chamada “Quando a Pele Incendeia Memorias”. A principal guardiã de sua memória é sua sobrinha neta, a arquiteta Ana Zélia Moreira.

A quantidade de registros de fotógrafos negros no século XIX é ínfima e retrata sobretudo como a história eurocêntrica ajuda a invisibilizar grandes personagens que passaram por ela. José Ezelino com certeza não foi o único, em um país como o Brasil, a se dedicar a fotografia naquele período. O que nos resta é buscar esses personagens soterrados nesses 180 anos de história da fotografia e colocá-los em seus devidos lugares, com seu devido destaque.

* Mestre em Jornalismo pelo Centro Universitário FIAM-FAAM e atua como Jornalista e Professor. Sua pesquisa se destina a compreender as relações de trabalho dos repórteres de imagem (fotógrafos e cinegrafistas). É também diretor sindical no Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. contato: eduardo.vine@gmail.com

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