O q faço é música

Por Adriana Braga*

Me apaixonei pela voz de Jards Macalé ao ouvi-lo cantar Cor de Cinza, no songbook dedicado às canções de Noel Rosa, produzido por Almir Chediak em 1991. É claro que eu já tinha ouvido ele cantar, conhecia algumas de suas músicas, principalmente Vapor Barato – composição de Macalé e Waly Salomão –, que Gal Costa gravou. Mas, ali, naquele momento ouvindo um samba de Noel dos anos 1930, a voz de Macalé me conquistou. De lá pra cá, comprei discos, assisti shows, li sobre ele, enfim virei fã.

Jards Anet da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 3 de março de 1943. Sua formação musical passa pela música erudita, pois estudou orquestração com o maestro e compositor Guerra-Peixe; violoncelo com Peter Daulsberg e violão com Turíbio Santos, mas sua carreira musical começou em 1965, na montagem paulista do espetáculo Opinião – o mesmo que lançou Maria Bethânia, quando esta substituiu Nara Leão na montagem carioca. Nela, Macalé tocava violão. Além de participações em peças do Teatro de Arena, ainda nos anos 1960, Jards Macalé compôs trilhas para produções do Cinema Novo de diretores como Glauber Rocha, João Pedro de Andrade e Nelson Pereira dos Santos. Acrescenta-se ao cinema e ao teatro o trabalho de Macalé relacionado às artes plásticas, com nomes como Helio Oiticica e Ligia Clark.

Em 1972, Jards Macalé lançou seu primeiro disco, que levava o seu nome e trazia composições como Mal Secreto (em parceria com Waly Salomão) e Hotel das Estrelas (em parceria com Duda Machado), ambas gravadas por Gal Costa no disco Gal a todo Vapor, de 1971, que também trazia a já citada Vapor Barato.

Em 1973, para lembrar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Macalé organizou o show Banquete dos Mendigos, que reuniu nomes como Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento, Johnny Alf, Paulinho da Viola, Gonzaguinha e Raul Seixas. Reunindo uma multidão na plateia do MAM (Museu de Artes Moderna) do Rio de Janeiro, e vigiado de perto pelos militares, Banquete do Mendigos foi gravado e lançado em um LP duplo, no ano seguinte, mas o disco foi censurado e só liberado para a comercialização em 1979.

Nas palavras do autor André Barcinski, Jards Macalé “representava o elo entre a MPB e a vanguarda das artes brasileiras”.[1] Sua música era (e é) sem rótulos e não comercial. Nos anos 1980, com a alta comercialização da música e com as grandes gravadoras mandando no mercado, Macalé se sentiu rejeitado, foi chamado de “maldito” (assim como Jorge Mautner e Itamar Assumpção – músicos que não se adequavam às regras da indústria cultural). Sobre esse período, ele declarou à Barcinski: “a arte sempre vive do conflito, não é? Se o artista não tomar cuidado, acaba diluído junto com essas coisas todas. Foi nesse espaço da solidão que eu passei os anos oitenta”.[2]

Talvez por isso nesse período ele tenha lançado discos de intérprete. Em 1987, Macalé gravou Quatro Ases e um Coringa, com composições de Paulinho da Viola, Lupicínio Rodrigues, Geraldo Pereira e Nelson Cavaquinho e no ano seguinte, 88, lançou Ismael Silva – Peçam Bis (projeto da Funarte), gravado ao lado da cantora Dalva Torres.

Os anos 1990 resgataram Jards Macalé da “solidão” da década anterior quando em 1996 o grupo Rappa gravou Vapor Barato no álbum Rappa-Mundi. No ano seguinte, Zeca Baleiro, em seu disco de estreia, Por onde Andará Stephen Fry?, usou a gravação de Gal e trechos de letra (da mesma) Vapor Barato em sua música Flor da Pele. Já o próprio Macalé lançou em 1998 o incrível O q faço é música, com canções como Rei de Janeiro (em parceria com Glauber Rocha), Movimento dos Barcos (com Capinam) ou ainda, Mais um abraço no nosso amigo Radamés, uma composição instrumental em homenagem ao maestro e compositor Radamés Gnattali.

O século XXI nos trouxe muito mais discos de Jards Macalé, começando com o dedicado ao Moreira da Silva, de 2001 (Jards macalé canta Moreira da Silva), depois vieram entre outros, Amor, Ordem e Porgresso (2003); Macao (2008); Jards (2011); e o mais recente Besta Fera (2019).

Este último disco, produzido pelos músicos Rômulo Froes e Kiko Dinucci, conta com a participação de Juçara Marçal e de Tim Bernardes – jovem compositor e cantor paulista, que Caetano Veloso elogiou na sua: Revisão muito incompleta do ano de 2018.[3] Aliás, Buraco da Consolação, parceria de Macalé e Bernardes, já entrou na minha lista de músicas favoritas para ouvir a toda hora.[4]

Jards Macalé é pop, é samba, é choro, vanguarda e tradição. Vale a pena pesquisar e ouvir um de seus lados – ou todos.


  • Possui graduação em Comunicação Social pela Fundação Armando Álvares Penteado (1989) e mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (2003). Atualmente é produtora executiva na Rádio Cultura da Fundação Padre Anchieta.

[1] BARCINSKI, André. Pavões Misteriosos: 1974-1983: a explosão da música pop no Brasil. São Paulo: Três Estrelas, 2015. (p. 15)

[2] Idem (p. 16)

[3] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/12/caetano-veloso-revisao-muito-incompleta-do-ano-de-2018.shtml

[4] https://www.youtube.com/watch?v=r0SGVxTI2Cs

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