Conheça Cyda Baú: atriz, quilombola e pesquisadora da cultura negra

Maria Carolina**

A plateia se torna um mar silencioso e atento, observando em seu horizonte uma força da natureza demonstrar-se imponente e, ao mesmo tempo, arredia. Esta descrição poderia ser um prelúdio para um poema romântico. Mas, não se engane. É um dos muitos sentimentos observados ao assistir à peça Os Rastros das Marias, um apanhado de histórias de mulheres negras brasileiras que não aceitaram o destino que diziam ser o seu: a servidão. Com humor, poesia e ternura o espetáculo contribui para a afirmação da identidade da mulher negra brasileira, valorizando sua luta e sua história.

E assim, chegamos nesta humilde e sorridente personagem da vida real, chamada Cyda Baú, que nos causa uma impressão positiva nos primeiros minutos de conversa, seja pela voz calma e doce, seja pelo olhar fixo, curioso e por ora, nostálgico. Nascida no quilombo Baú, em Minas Gerais, que hoje conta com 44 famílias na comunidade, totalizando 234 habitantes, Cyda sente-se muito grata pela criação de seus pais e pelo contato próximo com sua avó, dona Heroína, a quem diz ser uma verdadeira “mestre da vida”.

Por falar na ancestral, foi esta quem lhe ensinou a arte de cultivar o alimento que nasce da terra e nos alimenta. Desde pequena, Cyda a acompanhava nos trabalhos da roça, onde plantavam e colhiam milho, arroz, mandioca e tudo o mais que o plantio fazia vingar. “Tudo era bem-vindo”. Aos 12 anos, iniciou-se nos trabalhos domésticos de sua casa e na fazenda em que os seus pais e avós trabalhavam, e conseguiu dois emprego, um em Montes Claros e outro em Diamantina. 

A hora da virada 

Até os seus 25 anos, Cyda trabalhou como doméstica. “Eu lavava, passava, cozinhava, cuidava de criança, de cachorro, de idoso e, quando dava, estudava à noite”. Contudo, algo de terrível lhe acontecia: não era remunerada por seus serviços. Hoje, ciente do abuso e discriminação que sofria, entende que vivia sob o mesmo regime que seus antepassados, a escravatura. Assim, consumida pela determinação de buscar uma vida melhor para si mesma, onde pudesse ser valorizada enquanto ser humano e profissional, muda-se para o Rio de Janeiro, “acreditava que poderia mudar o rumo de minha trajetória, pois ao assistir as novelas, me projetava trabalhando na televisão”.

Ao chegar em seu ponto de destino, começou a perceber e compreender o impacto que o racismo estrutural faz na sociedade, de forma a moldá-la para que os negros tenham sua voz cada mais diminuída. Uma maioria que se torna minoria em um país que tanto se anuncia mundialmente diversificado por seus habitantes. Mas, com toda a garra que sua persistência conseguiu adquirir, prestou vestibular para a Escola de Teatro Martins Pena, uma das mais antigas escolas teatrais da América Latina. E passou. “Foi graças ao Criador Maior”, conta aos risos. 

E assim, começou seu percurso para o autoconhecimento que tanta precisava. Com a arte, começou a entender-se enquanto mulher negra, quilombola e representante da classe artística e o quanto poderia construir personagens que retratassem a vida de seu povo, sem as muitas esteriotipações existentes. “Nesta escola de formação de atores/artistas comecei a descobrir quem eu era, de onde eu vinha e o que significava ser empregada doméstica na zona rural e urbana do Brasil. A perversidade do racismo estrutural sempre impunha limites ao meu campo de atuação, determinando quais personagens poderia fazer: as criadas, as serviçais, as empregadas domésticas. Exatamente através da arte, percebia que não tinha personagens para nós, negros”.

Vivendo e aprendendo 

Em seu primeiro papel para a televisão, Cyda interpretou a empregada doméstica chamada Jacinta, na novela Esmeralda (SBT). Foi uma personagem que gostou de fazer, ainda mais por ter conquistado um espaço no elenco de uma produção televisiva. Porém, um certo dia, ao ler uma nota de um jornal sobre a novela, teve um estalo sobre o seu futuro. “E foi num dia em viagem de folga para Minas que li uma matéria de jornal que trazia o universo da novela, o elenco e tudo mais, e no final dizia mais ou menos assim: ‘Cyda Baú até que é boa atriz, mas vai fazer somente os personagens de sua sina’. Essa frase me despertou e comecei a escarafunchar sobre esta danada sina, olhando para o meu percurso de vida e também para os de muitas mulheres negras próximas e distantes de mim”.

Mesmo sendo uma crítica forte, Cyda levou como um aprendizado para sua carreira, e a fez querer algo diferente. “Fui compreendo o quanto teria ainda mais de juntar coragem para enfrentar o destino que realmente o jornalista estava certo em apontar: que para as mulheres negras, neste país, só restava a servidão”.

Com um sorriso orgulhoso, Cyda conta que os estudos, em especial a literatura, foram cruciais em sua vida e carreira. “É com as leituras sobre as mulheres negras e feministas, profundamente comprometidas com o rompimento do racismo estrutural, machista, patriarcal, homofóbico e eurocêntrico que venho me curando e construindo um lugar em que, eu mulher negra, cidadã brasileira, mereço. É observando, dos feitos valorosos da minha cultura ancestral e atual que estou aprendendo a me libertar do que não me cabe mais: dessa estrutura racista que nos molda”.

Hoje vive em São Paulo com seu companheiro Frederico Santiago e filho, João Thor, que são suas duas pessoas preciosas nesta vida. Quando possível, visita o quilombo, que diz lhe dar forças para continuar em suas batalhas diárias. “Com eles, venho abrindo os meus olhos e enxergando o quanto existe um sol que não somente queima as minhas angústias e cicatrizes, mas também ilumina os meus passos e me conduz nessa caminhada longa”.

E cita algumas das mulheres que lhe inspiram, “é através de Maria Firmina dos Reis, Abdias do Nascimento, Tereza de Benguela, Clementina de Jesus, Ruth de Souza, Benedita da Silva, Lélia Gonzales, Maurinete Lima, Luiz Gama, Dona Ivone Lara, Cleide Queiroz, Cartola, Jovelina Pérola Negra, Conceição Evaristo, Pixinguinha, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Carolina Maria de Jesus, Zumbi dos Palmares e principalmente de minha querida avó dona Heroína que tomei a coragem de construir o meu trabalho: minha personagem Maria em Os Rastros Das Marias, o qual tive o prazer de apresentá-lo no quilombo Aparelha Luzia”. E complementa, emocionada. “É isso, este espetáculo foi feito para celebrar a grandeza da mulher negra em teatros, escolas, bibliotecas, periferias, embaixo de um pé de manga ou em terreiros de qualquer quilombo no Brasil”. 

Esta é Cyda, uma mulher que nos direciona o olhar, por muitas vezes, julgador, para uma realidade crível que está condicionada a naturalizar histórias como a dela. É tempo de mudança, como a própria diz. Como também é tempo de resistência.

*Texto produzido originalmente para a disciplina Produção de Revista no segundo semestre de 2019.

**Aluna do 7º semestre do curso de Jornalismo.

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