Por Rute Reis*

Clóvis Moura e o Brasil é uma obra que traz a luz uma reflexão do lugar que ocupa esse pensador na história do pensamento brasileiro. Nos estudos contemporâneos sobre o negro e as questões raciais no Brasil a presença da produção intelectual de Clóvis Moura é o reconhecimento à produção de conhecimento e sua ação política.

Márcio Farias assume nesse livro a tarefa teórico/metodológico e política de retomar no pensamento social brasileiro a produção de Clóvis Moura e a centralidade da presença negra como sujeito histórico nesse processo. A obra traça uma linha histórica do Brasil Colônia à República dos pensadores que se dedicaram a pensar a formação social, política e econômica do Brasil. Esse recurso metodológico sinaliza para ambivalência da presença-ausência do negro no pensamento social brasileiro. A presença refere-se a todo o conjunto de estudos e relatos históricos que contam a história desde o tráfico transatlântico aos processos de produção cultural, a ausência refere-se ao não lugar do negro como sujeito político de resistência aos processos de dominação e exploração.

Farias apresenta Clóvis Moura como um nome decisivo no avanço da agenda de pesquisa sobre o tema da escravidão já sob a corte da nova matriz historiográfica, ainda que seu nome não figurasse nas listas daqueles que contribuíram para a renovação dos estudos clássicos de 1980. Sinaliza duas hipóteses sobre a vanguarda desse pensamento. A primeira, diz respeito ao objeto de estudos e pesquisas, demarcando a ação política dos sujeitos envolvidos; a segunda, é de cunho metodológico, Moura antecipou o conceito de agência que tem sido mobilizador de análises contemporâneas, em especial, nas ciências humanas.

Sua trajetória e produção passa ser referência aos trabalhos que estabelecem teoricamente o diálogo entre raça e classe, vale destacar que Moura inaugura este debate raça e classe na realidade brasileira, como processos estruturantes das desigualdades capitalistas, ou seja, não é possível pensar a classe sem a raça e vice-versa, assim, problematiza como o pensamento marxista e com vertentes do movimento de negritude que desconsidera a questão da classe. Raça e classe estruturam um modelo de exploração capitalista a ser compreendido a partir da realidade em que ocorre, é esse percurso de Clóvis Moura que brilhantemente Farias leva o leitor a trilhar.

É a partir do livro Rebeliões na Senzala: Quilombos, insurreições e guerrilhas (1959) que sua obra ganha o estatuto de ícone do movimento social negro acadêmico, proximidade e reconhecimento estreitados nas publicações dos anos de 1980 e 1990. Essa obra é considerada raiz fundante e também uma síntese da obra de Moura, segundo Faria:

“ …daquilo que ele se propôs a escrever tem nos estudos sobre escravidão, relações raciais e influência cultural africana para o entendimento do ethos nacional, suas referências principais. Soma-se também o marxismo contra hegemônico daquela época…” Seus estudos conjugam três raízes de questão: a questão do negro, a escravidão e o pós abolição, em diálogo com o pensamento social brasileiro de perspectiva marxista.” (p.58)

Conceitos como Quilombagem, como categoria analítica para apreensão da movimentação política do escravizado durante o período colonial, traduz a leitura de Moura sobre o Quilombo dos Palmares, que é apresentado por ele como uma experiência política sofisticada, nas palavras de Farias:

“(…) expressão mais refinada da capacidade dinamizadora do africano escravizado de se colocar enquanto força opositora ao regime colonial, estabelecendo assim uma contradição estrutural entre senhores e escravos nos país, isto é, a primeira expressão da luta de classe no Brasil”. (p.107)

O autor retoma uma das teses de Moura sobre o processo de transição para o trabalho assalariado no pós-abolição, em que a população negra é excluída da classe operária assalariada que era forjada através das políticas de estado em pró da imigração europeia. Projeto que fazia parte da política de branqueamento da sociedade brasileira. Sua análise é contundente, a população negra apresentava todas as condições para ser parte integrante dessa nova classe ascendente na sociedade brasileira já que vinham de experiência de vários setores da economia escravista.

Um segundo ponto de inflexão é da capacidade organizativa do povo negro. Moura é contundente em afirmar que os negros sempre se organizaram ou se envolveram em grupos já organizados. A preservação cultural de manutenção de elementos das africanidades eram formas exemplares de resistir ao regime escravista, e no pós-abolição os processos de organização e resistência são reelaborados e ampliados.

O livro é leitura obrigatória para todos que dialogam com as questões raciais no Brasil. Em tempos que o pensamento e a organização social têm sido desqualificados, trazer à cena o pensamento de Clóvis Moura é possibilizar novas formas de Aquilombar.

*Doutora em Ciências Sociais. Participa da pesquisa O Multiculturalismo Contemporâneo nas Escolas: reconhecimento e afirmação de Histórias e Culturas Urbanas Negras, como Pós Doutoranda pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

Leave comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *.