Lélia é conhecida por sua militância nos direitos da mulher negra, atuando em diversos frentes, como no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) e no Movimento Negro Unificado (MNU)

Por Maria Carolina*

Após o sucesso do grupo de estudos sobre as obras da filósofa Sueli Carneiro em 2019, o Núcleo de Estudos Étnico-Raciais (NERA), traz para meditação a pensadora negra Lélia Gonzalez, um dos grandes nomes que revolucionaram o movimento negro no Brasil. O primeiro encontro ocorreu neste sábado (17), sob mediação da professora Maria Lúcia da Silva. A programação completa você pode conferir nesta postagem

Na abertura do encontro, com apresentação da jornalista e pró-reitora da Faculdade Zumbi dos Palmares Francisca Rodrigues, a artista paulista Natali Conceição, que atua em diversos grupos de arte como o Pombas Urbanas, ligados a coletivos em prol da luta feminista, apresentou duas interverções artísticas que trouxeram alguns trechos de pensamentos de Gonzalez, embalados pelo batuque de um tambor e pelo samba de roda Embala Eu, da cantora Tereza Cristina. 

Na segunda parte da reunião, a professora Amanda Motta Castro, responsável pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/FURG e integrante do grupo de pesquisa interdisciplinar Lélia Gonzalez, realizou uma apresentação como forma de aproximar o público presente da autora. Por meio de uma contextualização sobre a carreira e vida pessoal de Lélia, baseando-se em conhecimentos de anos de estudo e no livro “Lélia Gonzalez: Primavera Para as Rosas Negras”, Amanda mostrou como a pensadora afrodiaspórica mineira tornou-se um renome dentre as principais referências na luta de classe, raça e sexismo em nosso país. 

Conhecer mais de nossos pensadores 

Motta cita o envolvimento de Lélia com Angela Davis, filósofa e militante política contra o racismo nos Estados Unidos e no mundo. Segundo ela, Davis disse durante sua passagem ao Brasil no ano passado, que nós brasileiros deveríamos ler mais nomes nacionais e assim, conseguir compreender com mais complexidade e recorte sobre nossos contextos históricos e socioculturais, citando Lélia como uma das suas principais fontes de estudo. “Foi a partir deste momento que tivemos um “boom” e houve um movimento de retomada da leitura dos textos de Lélia”.


Sobre a autora 

Gonzalez nasceu em Minas Gerais no ano de 1935. Filha de mãe indígena e pai negro, era a penúltima filha de dezoito irmãos. Levou seu tempo para compreender que existia uma barreira de cor que deve ser quebrada e que por pouco poderia tê-la impedido de seguir com suas ambições, como refletido neste trecho: “A gente não nasce negro, a gente se torna negro. É uma conquista dura, cruel e que se desenvolve pela vida da gente afora. Aí entra a questão da identidade que você vai construindo. Essa identidade negra não é uma coisa pronta, acabada. Então, para mim, uma pessoa negra que tem consciência de sua negritude está na luta contra o racismo.”


Imagens raras de Lélia Gonzalez através dos anos. Créditos para a apresentação de Amanda Motta Castro.

Desde cedo gostava muito de ler e por isso, tornou-se motivada a estudar, com o apoio de sua mãe, que sempre incentivou a filha a buscar o apoio estudantil na leitura. Com ajuda dos patrões de sua mãe, conseguiu ter um bom ensino quando jovem. Trabalhava muito e por este motivo teve diversos empregos, sendo um deles como diarista na casa de um dirigente do time que o seu irmão e então jogador de futebol, Jaime de Almeida, atuava. Inclusive, foi a partir deste emprego que Lélia questionou a jornada de trabalho dos empregados domésticos e pode se rebelar diante da situação de exploração que estavam tentando inseri-la. Ainda sobre seu irmão, a autora diz que ele foi uma das primeiras pessoas a ultrapassar a barreira da cor, pois foi o primeiro jogador negro a ser contratado pelo Flamengo. 

O ponto de virada na vida de Lélia começou quando se relacionou com Luiz Carlos Gonzalez, um homem branco e de família tradicional. Após a família do cônjuge lhe renegar, ele optou por continuar ao lado da companheira, que sentiu na pele o quanto o preconceito estava enraizado em determinadas pessoas e camadas da sociedade. Assim, após a morte de Luiz, recorreu à terapia, que lhe ajudou a se perceber e entender enquanto uma mulher negra. Deste modo, Gonzalez começava a consolidar sua carreira profissional e acadêmica, se tornando graduada em História, Geografia e Filosofia pela UERJ, mestre (ainda que não concluída) em Comunicação Social e doutora em Antropologia Social. 

Fluente em francês, inglês e espanhol, entrou no mercado editorial como tradutora de textos filosóficos, como a obra Curso Moderno de Filosofia dos autores franceses Denis Huisman e André Vergez. Publicou alguns livros com teor analístico com base em leituras realizadas dentro e fora do Brasil, como Lugar de Negro (1982) em parceria com o sociólogo Carlos Hasenbalg e o raríssimo Festas Populares no Brasil (1987), que será relançado pela editora Boitempo. Foi a partir da leitura em francês de o Segundo Sexo (1949) de Simone de Beauvoir, que Lélia criou um paralelo com o fato de tornar-se uma pessoa negra, como visto na figura abaixo. 


Gonzalez sempre será uma autora fundamental para complementar nossa perspectiva acerca da mulher negra defronte a sociedade, especialmente quando a história não foi construída para nós apresentar e prestigiar, fato que pode ser observado pela falta de nomes femininos e brasileiros em ementas de estudos, seja de nível fundamental ao  superior. Para Amanda, propostas como a Sala de Leitura Lélia Gonzalez se faz fortalecer a propagação de visões críticas e essenciais para nossa sociedade.  

  • Aluna do 7º semestre do curso de Jornalismo do FIAM-FAAM.

Leave comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *.