O livro selecionado para a segunda edição do evento é uma coletânea organizada e editada pela União dos Coletivos Pan-Africanistas (UCPA) que apresenta 45 textos vindos de documentos, cartas, depoimentos, entrevistas e artigos acadêmicos da autora

Por Maria Carolina *

Neste sábado (24) foi realizado o segundo encontro da Sala de Leitura Lélia Gonzalez, mediado pela professora Maria Lúcia da Silva. As palestrantes convidadas para a discussão dos três primeiros capítulos da obra “Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa” foram Neide Silva, mestre e doutora em Educação e integrante do grupo de pesquisa Ylê-Educare: educação e questões étnico-raciais; Andrea Rosendo, mestre em Comunicação, doutoranda e pesquisadora de Comunicação e Cultura na América Latina e Erika Teixeira, atriz, pedagoga e pesquisadora da cultura matriz africana e educação antirracista. 

Primeiro capítulo 

Dando abertura a conversa, Andrea Rosendo foi responsável pela análise do primeiro capítulo e apresentou alguns assuntos que chamaram a atenção durante a leitura, como racismo institucional, estrutural e comportamental; solidão da mulher negra; consciência de raça, social, classe e gênero e auto reflexão versus alienação. Rosendo também trouxe contextualizações para nossa realidade atual, com uma discussão pertinente sobre os sinais de resistência que são notados cotidianamente pelas mulheres negras, como a busca por um emprego digno para que exista uma quebra da relação de subalternidade instaurada desde a Escravidão. “Lélia busca expressar como somos e de que maneira nós existimos”.

Rosendo também salientou outro ponto importante de debate percebido neste capítulo: as críticas ao processo de adaptação que as mulheres negras precisam desenvolver, muitas vezes precocemente. Ela explicou que tal meio causa impacto em diversas camadas da vida social, como na precarização das moradias devido a desigualdade socioespacial, que leva ao processo de favelização. Também se aplica ao observar os casos de violência urbana e doméstica. Segundo a palestrante, Gonzalez tem um olhar mais cuidadoso para com as mulheres que vivem na América Latina, percebido ao longo da obra analisada. “Ela denuncia o preconceito arraigado no colonizador interno dos latino-americanos”. 

Segundo capítulo 

Perscrutado por Neide Silva, este capítulo aborda o mito da democracia racial, adotado pós-escravidão e encontrado no livro Casa-Grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre. Ao longo texto, Gonzalez discorre seu ponto de vista em contraponto com fatos históricos. Já no início, a autora diz que a miscigenação presente em nosso país é resultado “da violação de milhares de mulheres por parte dos homens brancos dominantes (senhores engenho, traficantes de escravos, etc)”. Esta observação amplia a perspectiva para a discussão sobre a sexualização da mulher negra, especialmente quando o termo mulata é utilizado de maneira pejorativa, dando margem para o pensamento retrógrado de que “mulheres negras são para copular e trabalhar”, novamente traçando um paralelo com o racismo estrutural. 

Outra questão sugerida foi a do mito do brasileiro cordial que, para Gonzalez, reflete no pensamento de que não houve luta por parte dos escravos durante este período de nossa história, apesar da comprovação por meio de documentos e estudos de que houveram vários quilombos datados desde 1559, alguns anos antes da criação do Quilombo dos Palmares, símbolo de resistência organizada pelos povos negros e uma nova forma de sociedade. A autora também acrescenta outras insurreições de grande valia para nossa história como a Revolta dos Malês e a Conjuração Baiana. 

Terceiro capítulo 

No último capítulo da discussão, Erika Teixeira trouxe uma perspectiva mais simplificada e didática de um capítulo complexo sobre relações de poder e o modelo capitalista, que leva os trabalhadores (também chamados de massa marginal) a uma conexão de dependência com a hegemonia capital industrial monopolizada. Os efeitos do neocolonialismo cultural e de um dualismo estrutural também são apontados, sempre análogos as relações trabalhistas dos povos negros. 

Para finalizar, Teixeira fez questão de ressaltar que Gonzalez coloca a mulher negra como um alicerce moral para sua família e comunidade, após o período que sucedeu a abolição, com uma jornada dupla de trabalho (fora e dentro de casa), algo não muito diferente do que conhecemos hoje, já que segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) as mulheres trabalharam 3,1 horas a mais do que os homens, sendo que 21,3 horas semanais eram destinados a afazeres ou cuidados de parentes. 

*Aluna do 7º semestre do curso de Jornalismo.

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