Por Maria Carolina *

Ao dar sequência no estudo da obra “Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa” os capítulos explorados buscam expandir o conteúdo crítico da autora responsável por contribuir com o entendimento da formação sociocultural do Brasil no ambiente acadêmico 

Durante o terceiro encontro da Sala de Leitura Lélia Gonzalez realizado no último sábado (7), foram debatidos os capítulos da obra “Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa” voltados para uma exploração aprofundada nas questões sociais ligadas a figura da mulher e população negra, levando em consideração contexto histórico,  político e cultural. Com mediação da professora Maria Lúcia da Silva, as palestrantes convidadas foram Carolina Nóbrega, graduada em Educação Física, mestre em Educação pela UNIFESP e professora de Educação Física na rede municipal de São Paulo; Fabiana Teixeira, formada em Direito,  pesquisadora do direito e movimentos sociais e integrante da Comissão Especial de Justiça Restaurativa da OAB-SP e Ação Nacional de Medicação Online FONAME e Necy Teixeira, formada em Letras, especialista em educação para jovens e adultos e consultora em aprendizagem organizacional e facilitadora de aprendizado e processos de cocriação. 

 Mulher negra enquanto organização política 

Na abertura do encontro, Carolina Nóbrega sintetizou o capítulo “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira”, no qual Lélia trabalha o mito da democracia desde a sua criação até o seu papel na luta do movimento negro, que há muitos anos se articula para desmistificar as ideias perpetuadas pelo termo cunhado por Gilberto Freyre em 1933. O capítulo, segundo Nóbrega, se torna importante para o aprofundamento de nossa compreensão diante da situação da mulher negra, colocando em pauta discussões sobre a fetichização dos corpos femininos em diferentes contextos, o que busca adicionar mais considerações para a visão da mulher negra enquanto uma organização política. 

Um ponto traçado por Nóbrega sobre a relação entre dominado e dominador pode ser ligado ao controle sobre os corpos negros, especialmente pelos mais de 300 anos de escravidão e apagamento de nossa própria história. Assim, a palestrante traz apontamentos acerca do uso (ainda presente) da expressão mulata, que parece ganhar visibilidade quando uma mulher negra é exposta de forma mais sensual, como quando é uma “deusa do samba” durante o carnaval. No ano passado, durante a cobertura da festividade, o jornalista Roberto Kovalick se referiu a uma passista como mulata, o que repercutiu de forma negativa nas redes sociais e causou uma maior reflexão sobre a maneira como o termo ainda é utilizado, assim como mucama, que se refere as empregadas domésticas. Ambas as expressões são carregadas de uma história triste que pode ser incompreendida por muitas pessoas. Neste cordel feito pela escritora, cordelista e poetisa brasileira Jarid Arraes para a Revista Fórum, fica clara a abordagem trazida por Nóbrega durante sua apresentação. 

População negra 

Como forma de interpretar o capítulo “A Lei Facilita a Violência”, um dos mais complexos e interessantes da obra em análise, Fabiana Teixeira aponta a importância da força de Lélia para os estudos acadêmicos que temos hoje, pois “devemos considerá-la uma intérprete por sua representação na discussão política e social, levando em conta quem ela era e o que tinha a dizer”. A intelectual sempre foi reconhecida por explorar de forma mais íntima e crítica diversas teorias e práticas, especialmente quando ligadas a questões sociais, como o afrocentrismo e o marxismo. Segundo Fabiana, Gonzalez trouxe o recorte da população negra deixada à margem da sociedade, sem quaisquer recursos para sua sobrevivência. Nota-se que tais condições existem desde séculos passados, por conta da exclusão por parte do governo, o que impactou diretamente nos direitos sociais incutidos pela Constituição, como garantia à educação, trabalho, moradia e saúde. 

Como Fabiana cita, as pessoas acabam sentindo-se desterritorializadas, o que provoca um distanciamento de suas identidades e raízes. Por isso, deve-se entender o significado das discussões sobre estes assuntos, seja em coletivos ou por meio estudos, como a própria Lélia expressa, já que para ela “falar do Movimento Negro implica no tratamento de um tema cuja complexidade, dada a multiplicidade de suas variantes, não permite uma visão unitária. Afinal, nós negros, não constituímos um bloco monolítico, de características rígidas e imutáveis”. 

“AFuncionalidade” no Brasil 

No capítulo “A questão negra no Brasil” temos uma continuidade ao conteúdo já explorado anteriormente, porém a palestrante Necy Teixeira ofereceu um olhar mais indagador para o texto de Gonzalez, principalmente ao explanar a distribuição geográfica da periferia no Brasil para além do Sudeste ao citar o estado do Amapá e a região Nordeste. A partir desta perspectiva, foi discutida a não funcionalidade no Brasil e como ela se envolve nas questões ideológicas e pessoais, com consequência no racismo e sexismo, que são transformados numa estrutura objetiva que se tornou nociva. A partir disto, segundo abordado por Necy, podemos ver diversos discursos sendo utilizados nos ambientes de trabalho, correntes progressistas na política e o mito da democracia racial. 

A Lei Afonso Arinos foi citada durante o espaço de fala de Necy. Aprovada em 3 de julho de 1951, o seu objetivo é prever a igualdade de tratamento e direitos iguais. Contudo, existem críticas quanto a aplicação da lei, especialmente em locais de maior intimidade ou no interior do lar, pois a maior parte dos casos são punições constatadas em locais públicos. Ainda assim, é apenas uma ferramenta que não se mostra tão efetiva, uma vez que as formas de opressão já são pré estabelecidas, como apontar características que irão diminuir o indivíduo a ponto do mesmo ser colocado em posições inferiores. Como Gonzalez expressa: “Com isso, o grupo racial dominante justifica sua indiferença e sua ignorância em relação ao grupo negro. Se o negro não ascendeu socialmente e se não participa com maior efetividade nos processos políticos, sociais, econômicos e culturais, o único culpado é ele próprio. Dadas as suas características de “preguiça”, “irresponsabilidade”, “alcoolismo”, “infantilidade”, etc. ele só pode desempenhar, naturalmente, os “papéis sociais mais inferiores”.


*Aluna do 7º semestre do curso de Jornalismo.

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