Ao longo dos encontros, a obra “Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa” foi explorada por diversas estudiosas e profissionais que trouxeram a trajetória e pensamentos críticos de um dos maiores nomes da antropologia e do movimento negro e feminista no Brasil

Por Maria Carolina*

Durante o último encontro da Sala de Leitura Lélia Gonzalez, mediado pela professora Maria Lúcia da Silva, foi apresentada mais uma parcela significativa da vida da intelectual, bem como uma explanação de seus textos, especialmente citando suas falas relacionadas a sua carreira política. As palestrantes convidadas foram Andrea Rosendo, jornalista, mestre em Comunicação, doutoranda e pesquisadora de Comunicação e Cultura na América Latina; Flávia Rios, professora na Universidade Federal Fluminense, coautora do livro de Lélia e organizadora das também obras Negros nas Cidades Brasileiras e Por um feminismo afro-latino-americano; Paula Silva, jornalista formada na FIAMFAAM e criadora de conteúdo e Dirce Thomaz, atriz há mais de trinta anos, diretora e arte-educadora. 

O papel da mulher negra 

Em 1985, durante a entrevista “Mito feminino na revolução malê” para o jornal Afro Brasil, é perceptível que Gonzalez explora seu ponto de vista acerca do papel da mulher negra na luta contra o racismo e na construção da sociedade brasileira, especialmente quando relacionada a Revolta dos Malês, levante ocorrido na então província da Bahia em janeiro de 1835, onde houve a participação de diversas mulheres. Segundo Andrea Rosendo, ao observar esta entrevista com mais atenção, é possível traçar paralelos com as escolhas das fontes e entrevistas no jornalismo hegemônico, sendo muitas vezes pontuais de acordo com o assunto a ser retratado, como se mostra nas manifestações relacionados ao dia da Consciência Negra e ao longo do mês de novembro. 

Em diversos ocasiões estudadas por Rosendo, as falas de Gonzalez foram invisibilizadas, como no caso desta e de outras entrevistas, sendo expostas somente após seus textos serem analisados por outros estudiosos ou militantes do movimento negro. “Como a própria Lélia deixa claro, a mulher negra é parte da consciência social do Brasil”, reafirma Rosendo. Por isso, grande parte das entrevistas de Lélia foram feitas em veículos alternativos, o que firma a discussão a respeito da agenda newsmaking e do jornalismo independente que temos tão presente nos dias atuais. 

Lélia e a política 

O Pasquim foi um dos veículos jornalísticos mais importante de nosso país, especialmente por atuar de forma opositora ao governo autoritário durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). Assim, como exposto por Paula Silva, na década de 80, Gonzalez concedeu uma entrevista a ele, na qual afirmou que seu processo de branqueamento só parou quando se casou pela segunda vez. Para Silva, esta etapa da vida de Lélia também trouxeram outras questões que para se pensar, como os relacionamentos inter-raciais. Além de abordar mais sobre seu casamento, militância e questões pessoais, também foi discutido sobre religião ao citar o Candomblé. Para Lélia,  “ele [candomblé] é uma coisa ecológica. Você faz comida, faz oferenda, você vai para minha árvore. Minha religiosidade está muito mais africanizada do que ocidentalizada”. 

A autora de “Retratos do Brasil Negro” também cobrou um posicionamento do Brasil diante do Apartheid, regime de segregação racial implementado na África do Sul no final da década de 40. Muito ligada a questões políticas, candidatou-se em 1982 ao cargo de deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e depois em 1986 pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). Em ambas as ocasiões foi suplente. Sempre foi a favor das mulheres ocuparem seu devido espaço em diversas conjunturas de nossa sociedade e no âmbito político não seria diferente, particularmente por ser um local majoritariamente ocupado por homens brancos. 

Durante o governo Sarney, foi indicada por Ruth Escobar, então presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), para ser Ministra da Cultura. Aliás, quando Escobar passou a receber críticas fortes sobre sua gestão, Gonzalez a defendeu. As duas tinham um bom relacionamento e Gonzalez também atuou no CNDM ao lado de Benedita da Silva, 59ª governadora do Rio de Janeiro, primeira senadora negra e atualmente,  deputada federal. Em uma fala importante sobre a importância das mulheres apoiarem umas às outras, ela diz “tem uma coisa que às vezes eu afirmo e é muito enquadrado nesse caso, mulher a gente não nasce, a gente se torna. Tornar-se mulher é uma conquista dolorosa, muito sofrida, mas é muito compensadora numa série de aspectos”. 

A importância de Lélia 

Flávia Rios, uma das responsáveis pela obra “Por um feminismo afro-latino-americano”, lançada este ano pela editora Zahar, frisou em sua fala sobre a importância de espalhar os pensamentos e posicionamentos de Lélia, especialmente quando ainda existem diversas informações mascaradas sobre nossa própria história. Ela comenta o quanto Gonzalez sempre esteve junto e lutou pelos direitos das empregadas domésticas, sempre citando uma figura que teve como inspiração: Marli Pereira Soares, ou Marli Mulher, como ficou conhecida na imprensa e ao longo do tempo, que lutou contra a ditadura militar após testemunhar o assassinato de seu irmão, Paulo Pereira Soares. 

Como forma de expressar o agradecimento pela bagagem rica de conhecimento deixada por Gonzalez, a atriz Dirce Thomaz fez uma performance emocionante intitulada “Lélia! Sua voz é nossa voz!”, que trouxe uma atmosfera cheia de energia positiva e ancestralidade para todos os presentes no evento. A participante Denise Fraga também prestou uma homenagem em forma de arte com o desenho abaixo. Mesmo após cinco encontros, o poder e influência de Lélia Gonzalez ainda serão transcendentais, especialmente em tempos de muita luta por nossas vidas. 



*Aluna do 7º semestre do curso de Jornalismo.

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