Ao longo de seis sábados, a obra “Eu sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento”, do antropólogo e professor Alex Ratts será abordada como meio de discussão

Por Maria Carolina*

Após o sucesso dos encontros que abordaram Sueli Carneiro e Lélia Gonzalez, a Sala de Leitura do Núcleo de Estudos Étnico-Raciais (NERA), traz para conversa a historiadora, poeta, professora e ativista sergipana Beatriz Nascimento, um dos nomes mais importantes do movimento negro brasileiro. O primeiro ocorreu no último sábado (20), sob mediação da professora Maria Lúcia da Silva. 

Para o desenvolvimento da conversa, foi escolhida a obra “Eu sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento”, do antropólogo e professor Alex Ratts, que produziu sua biografia intelectual. As pesquisadoras convidadas pelo NERA, a cada encontro, vão apresentar os capítulos da segunda parte do livro, que são artigos publicados por Maria Beatriz. 

Dando abertura aos trabalhos, a primeira convidada foi a professora, documentarista e pesquisadora Edileuza Penha Sousa, que ficou responsável pelas reflexões sobre o filme Orí, uma obra biográfica sobre a autora estudada. Com a ilustre presença de Ratts, com comentários sobre como conheceu o trabalho da intelectual e os seus motivos para investir em seus estudos, trouxe mais conhecimento sobre uma das grandes ativistas em prol dos quilombolas, especialmente por ser crítica ferrenha a historiografia feita em sua época. “A Terra é o meu quilombo. Meu espaço é meu quilombo. Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou.”

Não é nenhuma novidade o apagamento de inúmeras figuras de mulheres negras que deixaram um belo legado para nosso aprendizado. Quando pensamos em Beatriz Nascimento, devemos ter em mente o contexto de sua vida: nascida em 12 de junho de 1942, filha da dona de casa Rubina Pereira do Nascimento e do pedreiro Francisco Xavier do Nascimento, aos 28 anos, se formou em História na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Neste tempo, fez estágio no Arquivo Nacional com o historiador José Honório Rodrigues. 

Depois de formada, passou a atuar como professora, mesclando ensino e pesquisa. Inclusive, foi a partir de sua experiência em sala de aula e a vida, que iniciou sua trajetória enquanto militante pelos direitos dos negros. Os seus posicionamentos geraram uma repercussão que a levaram, em 1977, a Conferência Nacional Quinzena do Negro, realizada na Universidade de São Paulo, que se configurou como um importante encontro de pesquisadores negros.

“Ela foi uma intelectual que me fez reever sobre diversos assuntos como feminismo negro, processo de cotas, questões sociais, etc”, afirma Alex Rattas, autor do livro em discussão. Mesmo com as mudanças de estados, os percalços impostos e a responsabilidade pelo nome retratado, o antropólogo conseguiu publicar a obra que traz uma série de artigos e críticas da autora sobre a cultura negra e outros apontamentos para realidades que acompanha enquanto viva, mesmo que muita coisa não tenha mudado. “Sem dúvidas ela foi uma intelectual negra de maior prestígio da década de 70”, diz Ratts. 

Capa do livro “Eu sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento” de Alex Ratts. (Crédito: Divulgação)

Seus artigos foram publicados em periódicos como a Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Já os seus textos se tornaram parte de jornais e revistas como Folhetim da Folha de S. Paulo, Isto é, Jornal Maioria Falante, Última Hora e a revista Manchete. Uma de suas críticas mais conhecidas foi do filme longa-metragem Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues. Na sua visão, a obra apresentava um estereótipo racialistas e sexistas. 

“(…) Xica da Silva vem reforçar o estereótipo do negro passivo, dócil e incapaz intelectualmente, dependente do branco para pensar. Seu comportamento com o contratador é o de uma criança piegas que não atina com o que quer. A Xica da Silva da História é uma mulher prepotente e dinâmica, atenta ao seu redor, o que está de acordo com a situação da mulher em determinadas estruturas africanas e que em parte foi transferido para o Brasil. (1976: 20)

Peitando com determinação o regime militar e impondo suas opiniões, Beatriz Nascimento ao lado de Eduardo Oliveira, Lélia González e Hamilton Cardoso, conseguiram concentrar um discurso político capaz de mobilizar um já presente movimento negro. Mas, mesmo usando um discurso em tom mais crítico ou um artigo com uma escrita mais professoral, é na poesia que conseguimos saber mais sobre sua mente e coração, como visto na coletânea “Todas (as) distâncias:poemas, aforismos e ensaios de Beatriz Nascimento”, também promovida por Ratts junto de outros colaboradores.  

Mesmo com seu nome sendo reconhecido, foi com o filme Ori, escrito e narrado por ela, com direção da socióloga e cineasta Raquel Gerber, que Beatriz Nascimento alçou novos patamares. Buscando contar um pouco de sua vivência com a carreira e a militância, ela traça paralelos sobre sua própria desconstrução, como quando compara seu documento de identidade com sua essência e aquilo que busca para si mesma. O título, por si só, já carrega muitos significados: Ôri quer dizer “cabeça” ou “consciência negra” na língua yorubá. 


Cena do filme “Ori”. (Crédito: Captura de tela/ Edileuza P. Santos)


A obra traz uma pesquisa bem interessante sobre os movimentos negros brasileiros de 1977 e 1988, passando pela relação entre Brasil e Africá, com o quilombo como um ideial de continuidade histórica para traçar o lado pessoal de Beatriz Nascimento. “O que vocês acompanham são 10 anos de muita pesquisa e imagens captadas ao longo dos anos”, diz Edileuza Penha Santos, que trouxe pontuações importantes sobre o desenvolvimento do filme, uma vez que traz um olhar mais crítico do seu ponto de vista enquanto uma historiadora e documentarista. 

“Parte de sua história e trajetória é a partir da construção do coletivo”, afirma Edileuza. E esta questão do grupal, se encaixa no candomblé e nos quilombos, especialmente quando ela diz que precisamos de locais para celebrar e marcar a história e cultura negra, com o que conhecemos hoje como aquilombamento urbano, citando espaços como Aparelha Luzia e o Museu Afro Brasil. “Para Beatriz, ‘se existe presente é porque existe o passado’”, reforça. 

Com a vida interrompida de forma brutal, com o seu assassinato enquanto defendia uma amiga, Beatriz Nascimento deixou uma rica e importante herança de conhecimento que deve ser espalhada e discutida. Se Beatriz é resistência, nós também somos! 

A seguir, você pode conferir a programação completa:

Dia 20/03/21 – Palestrantes: Alex Ratts e Edileuza Souza

Temas: “O Livro Eu sou Atlântica: sobre a história de Beatriz Nascimento” e Análise do Filme “Ori”

Dia 27/03/21 – Palestrantes: Neide Silva, Mônica Luz e Flávia Abud Luz

Tema: O conceito de quilombo e a resistência cultural negra.

Dia 10/03/21 – Palestrantes: Tarsila Flores e Andrea Rosendo

Temas: Kilombo e memória comunitária: um estudo de caso e Daquilo que se chama cultura.

Dia 24/03/21 – Palestrantes: Fabiana Teixeira e Necy Teixeira

Temas: Por uma história do homem negro.  A mulher negra no mercado de trabalho. 

Dia 08/03/21 – Palestrantes: Mariléa Almeida e Maria Lucia da Silva

Tema: Revisitando o conceito de quilombo

Dia 22/03/21 – Palestrantes: Erika Teixeira e Maria Lucia da Silva

Temas: Nossa Democracia Racial e A Mulher Negra e o Amor.

*aluna do 8º semestre do curso de Jornalismo.


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