Em palestra realizada no dia 22 de abril, o profissional explicou sua arte e como o negro pode ascender no audiovisual

Arthur Vieira Beserra*

O diretor de cinema e TV Jeferson De tem um extenso currículo que pode ser destacado pela direção das séries Pedro e Bianca (coprodução Coração da Selva e TV Cultura) e Escola de Gênios (Mixer / Gloob); a novela Bom Sucesso (TV Globo) e os filmes Bróter, O Amuleto, Correndo Atrás e o sucesso de repercussão e crítica M8: quando a morte socorre a vida.

Na mesa mediada pelos professores Thiago Venanzoni e Bruno Casalotti durante a realização da Semana Acadêmica foram discutidos assuntos como a ascensão do negro no audiovisual, processo criativo e direção. Jeferson aproveitou ainda para falar de seus novos projetos. Participaram, também, os professores Wiliam Pianco, Sancler Ebert e Maria Lúcia da Silva.

Formado em cinema pela USP, o profissional publicou no ano 2000 o manifesto Dogma Feijoada, questionando o que seria o cinema negro brasileiro. Foi uma referência ao movimento Dogma 95, criado pelos cineastas Thomas Vinterberg e Lars Von Trier, que defendiam um cinema mais realista e menos comercial. Apaixonado por edição, colaborou com projetos como os realities 20 e Poucos Anos (MTV Brasil) e Popstars (SBT). Na sequência lançou seus primeiros curtas.

Ele conta que a grande virada veio com o filme Bróter, de 2010: “Foi uma entrega total, tendo criado o roteiro, dirigido e podendo opinar muito na edição do filme”. O longa, que conta a história do reencontro de três amigos que vivem na periferia de São Paulo, foi exibido em festival internacional: “Para minha surpresa, um dia estava indo para casa, de ônibus, e o meu celular toca e era o Kito Ribeiro (editor) me dando a notícia de que o filme seria exibido em Berlim (…) Ali minha história com o cinema começou”, conta Jeferson. Orgulhoso, completa: “Nesse tapete vermelho eu vi o meu ídolo, Martin Scorsese, que estava com Leonardo Di Caprio, lançando A Ilha do Medo. Pensei: ‘Ih, cheguei nesse lugar!’”. 

Questionado sobre como enxerga o cinema, Jeferson explica que vive numa eterna busca por algo genuinamente brasileiro, assim como os pioneiros Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha fizeram há algumas décadas. Na geração atual, destaca nomes como Renata Martins e Camila de Moraes, diretora de O Caso do Homem Errado, disponível no Globoplay.

Ele acredita que, como na sociedade, o negro precisa ocupar o seu lugar nas telas, retratando a realidade brasileira e não apenas o estilo baseado em filmes estrangeiros. Isto não deve se resumir aos atores, mas também incluir as posições de diretor e produtor. “Já na década de 1970 e 80 não faltavam negros no audiovisual, mas eles estavam ali nos créditos da metade para o final. São aquelas pessoas chamadas ‘Chicão’, ‘dona Maria’, pessoas sem sobrenome. Nos meus filmes eu exijo que as pessoas tenham sobrenome. Elas precisam ser respeitadas”, explica o diretor sobre o modo como profissionais dos bastidores são tratados.

Convidado por Cao Hamburger (criador de Castelo Ra-Ti-Bum) para a sua nova produção, Pedro e Bianca, teve o desafio de dirigir para um público cheio de dúvidas na adolescência. A série ganhou o Emmy Internacional, o maior prêmio da televisão mundial. Já Escola de Gênios foi direcionada à uma faixa etária ainda mais nova, na casa dos 12 anos para o canal Gloob, outro grande desafio. 

O convite para a televisão comercial aberta veio com Bom Sucesso (Globo), em 2019: “Foi muito bom trabalhar com os autores Rosane Svartman e Paulo Halm, os dois são cineastas”, conta. O que mais lhe chamou a atenção foi a história ter um núcleo popular forte e mesclado com literatura. Dirigir uma obra com 155 capítulos que vai sendo construída ao mesmo tempo em que vai ao ar, lhe permitiu desenvolver maior segurança para as próximas obras.

Em sua carreira entendeu que a melhor tática para conquistar espaço para pautas importantes não é o confronto, mas o consenso. Equilibrar o interesse do realizador, que está investindo na ideia, e do diretor que vem com a parte artística: “Com o tempo conquistei o direito de definir o corte final de alguns dos meus filmes”. Preferindo mais ouvir do que falar, trabalha com um roteiro aberto, sempre em busca da melhor solução. 

Seu sucesso mais recente é M8: Quando a Morte Socorre a Vida, lançado em 2020. O filme mostra a história de Maurício (Juan Paiva), um jovem negro que conquista uma vaga na faculdade de Medicina. Na primeira aula, conhece M8: o cadáver que terá de estudar nas aulas de anatomia. Para descobrir a identidade do corpo, terá de superar suas próprias angústias. O racismo presente na sociedade pode ser silencioso, mas torna-se gritante quando o público percebe que isto acontece todos os dias em todas as esquinas. 

Um dos momentos mais lembrados da obra é quando Maurício discute com a mãe, interpretada por Mariana Nunes. Jeferson conta que os críticos estranharam a resposta dela, uma mulher simples, às reclamações do filho. O diretor explica que não utilizou uma reação física, como seria o esperado, pois procurou homenagear a figura de Marielle Franco (assassinada em 2018), que através de suas palavras procurou combater a violência.

Sobre o futuro do audiovisual, ele é otimista apesar do momento difícil provocado pela pandemia da covid-19 e dos cortes do Governo Federal na área da cultura: “O futuro já começou. A construção dele é feita diariamente, por exemplo, por garotas e mulheres trans roteiristas. No geral, graças à tecnologia, nossa capacidade de criação e o aceitamento da diversidade, ampliamos nosso espaço”, finaliza Jeferson, que foi convidado pela professora Isabella Goulart para dar uma aula magna quando lançar o seu próximo filme no segundo semestre deste ano sobre o abolicionista Luís Gama. O ano ainda guarda outras novidades como a direção de um núcleo negro em uma telenovela e a versão em longa-metragem do curta Narciso Rap, que se propõe a falar do efeito do racismo estrutural sobre as crianças negras. 

Por iniciativa do convidado, a palestra foi dedicada à memória do ator João Acaiabe, que interpretou o Tio Barnabé no Sítio do Pica-Pau Amarelo (Globo) e o cozinheiro Chico em Chiquititas (SBT). Para Jeferson, o papel marcante do ator foi em O Dia em que Dorival Encarou a Guarda, de 1986.






Perguntas do chat

Matheus Caldeira Jardim: Quais barreiras os filmes considerados ideológicos, como Marighella ainda enfrentam? Existe alguma dificuldade com as distribuidoras?
Jeferson De: Se a história do filme for boa, ela vai chegar ao público. Não são apenas os filmes politizados que enfrentam um momento difícil, mas o cinema nacional como um todo. Sempre existiu dificuldade para estrear, mas esse momento tem sido excepcional. Há até pouco tempo, havia uma grande variedade de obras, mas hoje está limitado devido à falta de apoio. Quanto às distribuidoras, elas sempre estarão abertas para o que tiver potencial comercial.
 
Mariana Reis: Como foi o desenvolvimento do ponto de vista de M8 ao falar do racismo estruturado unido à violência?
JD: O filme foi construído sobre a ideia de que o racismo bate mais forte quando é silencioso. Não há uma cena em que o protagonista seja xingado por um homem branco, mas existe o momento em que um homem negro tem seu pescoço pisoteado por um policial branco. Gravei essa cena dois anos antes do caso de George Floyd e três antes do Beto do caso do Carrefour! Quando eu vi aquilo, eu pensei: nossa eu filmei isso no M8! A sutileza do racismo ainda fica presente quando o outro policial, negro, diz ao personagem agredido (apontando a cor do braço): “Pô, à essa hora em bairro de bacana?!”.
 
Nathalia Niebuhr: Este semestre pensamos em nos aventurar num suspense e o M8 está sendo uma das principais referências. Como foi montar o casting?
JD: Além da agência que trabalha conosco, eu já tinha alguns nomes em mente, como Ailton Graça, Juan Paiva, a Mariana Nunes e a Zezé Motta, que sempre estará em um filme meu, é a rainha, uma grande professora. Na Buda Filmes, minha produtora, mantenho um arquivo com todos os currículos e sempre chamo os candidatos quando surgem papeis com tais perfis.
 
Prof.: Thiago Venanzoni: M8 foi muito comparado a alguns filmes como Corra, que segue esta nova linha de tratar assuntos raciais dentro de gêneros como o terror. Houve esta influência do filme de Jordan Peele?
JD: As produções nacionais procuram mergulhar em algo que é a base da sociedade brasileira que é o racismo estrutural. Ou, como diria o professor Adilson Moreira, o racismo recreativo, quando quem pratica diz que está fazendo humor. Em M8, isto está presente logo no começo quando um aluno negro habilidoso com o bisturi na aula de anatomia ouve do colega que ele tem talento e que vai arranjar um bom trabalho como açougueiro. E sim, temos uma citação clara ao Corra, onde coloquei a Cida Moreno para interpretar a empregada enigmática.
  • Aluno do 6º semestre do curso de Jornalismo.

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