Alan Felipe Martins Durães*

A partir do Trabalho de Conclusão de Curso que surgiu a ideia de Wagner Ramalho, 41, ir além da teoria e partir para a prática ao desenvolver o projeto Prato Verde Sustentável na zona norte de São Paulo. Wagner que foi criado por uma família indígena e estudou na Associação Mutirão quando mais novo, decidiu voltar ao local anos depois como professor e educador ambiental. Lá criou o projeto que ensina sobre educação alimentar e ambiental, além de realizar doações dos alimentos produzidos na horta agroecológica.

Em parceria com a Associação Mutirão, o Prato Verde Sustentável surgiu num terreno que para muitos servia apenas para o depósito de entulhos, consumo de drogas, prostituição, mas justamente ali, nasce a ONG que através de uma agricultura ecológica atende moradores de comunidades carentes da cidade. Confira o bate-papo.

DUMELA: Por que você decidiu criar o projeto?

Wagner Ramalho: Eu decidi fazer o projeto porque a gente vê uma segregação alimentar nas periferias. Um “nutricídio” acontecendo muito forte também com o povo preto, periférico. E aí eu costumo dizer que: Qual é a energia que move o mundo né? E aí muita gente acaba me respondendo que é energia elétrica, petróleo, carvão, gás. Daí eu repondo que a energia que move o mundo é o grão, a alimentação equilibrada sem nenhum tipo de contaminantes, seja ele físico ou biológico, com acesso fácil e barato. Essa é a energia que move o mundo. E se a pessoa não está bem alimentada acaba sendo excluída da sociedade, então costumo dizer que a primeira segregação é a segregação alimentar. Sem ela a criança ou a pessoa não consegue pensar, não consegue se locomover, então ela está excluída de uma sociedade. Então, nesse sentido nasce o Prato Verde Sustentável, que é uma tecnologia de impacto socioambiental que através de hortas agroecológicas acaba levando a educação ambiental e alimentar para as periferias.

DUMELA: Durante esse processo enfrentou alguma dificuldade?

W.R: Sim! A dificuldade é até hoje. Desde recursos humanos, financeiro. Então, isso atrapalha um pouco o processo e desenvolvimento da nossa ONG. Agora que eu estou fazendo uma pós de lideranças sociais estou conseguindo entender um pouco mais sobre como fazer para profissionalizar mesmo o Prato Verde Sustentável para captar recurso, para minimizar os impactos. Então está dando certo, pois estou conseguindo trabalhar com voluntários que acabam contribuindo bastante. Aliás nós sempre trabalhamos com voluntários. Eles vão pelo menos uma vez por semana no Prato nos ajudar, assim cada um tem uma função específica naquilo que ela tem de melhor para contribuir para o projeto.

DUMELA: Qual é o público que frequenta o projeto?

W.R: Vai desde os dois anos de idade até a fase adulta, idoso. A gente não tenta fechar esse ciclo por faixa etária. A gente tenta pegar todos, desde a criança até ao idoso.

DUMELA: O que o projeto oferece?

W.R: A ONG oferece desde educação ambiental e educação alimentar, mas também empreendedorismo, criação de renda, cultura de paz, economia solidária. Então acaba diminuindo os impactos socio ambientais nas favelas e periferias, muito na prática. A gente consegue minimizar os problemas diretamente. Então, para vocês verem os nossos números de alimentos produzidos: por ano a gente produz 9 toneladas de alimentos agroecológicos. Nós já treinamos mais de 1800 alunos. Pessoas atendidas diretamente e indiretamente são mais de 5 mil. Então a gente faz a diferença na comunidade, com hortas tradicionais, verticais, oficinas de vivências ecológicas. A gente tenta através da horta que é um instrumento de fácil compreensão, que é uma linguagem que é mais prática levar educação ambiental, alimentar e trazer renda para essas pessoas. Hoje o projeto emprega cinco pessoas e apesar de não ter sustentabilidade para todo mundo, as pessoas que estão no campo recebem uma ajuda de custo que varia de 700 a 900 reais. Essas pessoas trabalham de três a quatro dias por semana em meio período e ganham esse valor. Se o prato tivesse captação de recurso maior, com certeza essas pessoas também receberiam mais. O Prato oferece renda para a comunidade e ainda tem o motoboy, contador, então ao todo o Prato Verde já emprega bastante pessoas.

A ONG atende pessoas de toda a faixa etária, evidenciando a importância da educação ambiental Foto: Reprodução/Instagram/Wagner malho

DUMELA: Como faço para participar/colaborar?

W.R: Para participar você pode ser voluntário. É verificar o melhor dia e horário e quantas horas você pode nos doar, além de colaborar com a nossa rifa, fazer contribuição de doação financeira e comprar nossos produtos agroecológicos pelo nosso WhatsApp. Esse último ponto é bem restrito porque a ideia não é vender alimentos e sim fazer essa doação para a periferia, mas para a gente manter o Prato Verde precisamos vender 30% dos nossos produtos.

DUMELA: Comente um pouco sobre como iniciou essa parceria com a Associação Mutirão.

W.R: Eu estudei lá quando era adolescente, então eu via um terreno com potencial muito grande. Daí eu ficava pensando o porquê não cultivar e plantar ali. Eu fui morar com uma família descendente de indígena, eles sempre abasteciam a mesa com o próprio alimento que cultivavam da própria terra. Então quando eu cheguei aqui em São Paulo fui estudar no Multirão e vi aquele terreno enorme. Daí eu falei que um dia queria voltar ali só para poder plantar, virar um fazendeiro urbano. Graças a Deus não virei um fazendeiro urbano e sim um educador ambiental com o projeto sustentável. Nesse sentido eu gosto de pegar frase do Emicida que diz “Nunca volte de mãos vazias e mente vazia da sua quebrada “. Eu saí de um trabalho que era só para assinar papel, eu era um marketing ambiental dessa empresa e quis voltar para minha comunidade, resolvi dar aula e criar esse projeto Prato Verde Sustentável. Eu estudei na FMU e lá tive bons professores que me orientaram a desenvolver o projeto primeiro na teoria no desenvolvimento do meu Trabalho de Conclusão de Curso. Mas eu não queria ficar só na teoria e sim botar tudo aquilo na prática. Eu não queria que uma ou duas pessoas lessem aquele TCC durante alguns anos e depois caísse no esquecimento. Eu queria fazer um impacto socioambiental numa comunidade, atingir muito mais pessoas. Comecei com uma horta pedagógica e hoje a gente produz 9 toneladas em uma área que era totalmente ociosa e hoje é um lugar cheio de vida.

DUMELA: Como foi receber o prêmio da ABRAPS pelo trabalho desenvolvido?

W.R: A premiação é uma consequência do nosso trabalho. Então se a gente está fazendo um trabalho muito bem feito a gente vai ser premiado, vai sair em várias mídias. Nós já saímos no Estadão, G1, Folha de São Paulo, El País, na Rede Gazeta. É extremamente importante ser reconhecido porque nos dá energia para poder continuar. Se a gente está sendo premiado é porque primeiramente as pessoas precisam do projeto, e segundo, porque a gente está no caminho certo combatendo pobreza, desigualdade e os impactos ambientais na periferia.

DUMELA: Educação ambiental e alimentação ter a ver?

W.R: Tem tudo a ver porque hoje um dos grandes problemas do meio ambiente é o desmatamento com a produção da monocultura no campo e de criação de gado. O agronegócio está devorando, acabando com a agricultura familiar, camponesa e, como consequência disso, há falta de alimentação básica na mesa dos brasileiros gerando a insegurança alimentar e ambiental. A monocultura e o agronegócio destroem todo um ecossistema, destrói rio, solo, polui ar, deixa muitas pessoas desempregadas e cria o êxodo rural quando a pessoa acaba saindo do campo e vai para a cidade provocando o aumento de pessoas na cidade e da pobreza, violência e “favelização”.  Então a educação ambiental e alimentar tem a ver. E para diminuir isso a gente tem que produzir nosso próprio alimento, ter a nossa autonomia e soberania alimentar. No Prato Verde ensinamos essas pessoas a produzir seu próprio alimento em cima da laje, nos corredores, em terrenos ociosos. Então, através da horta que a princípio é para alimentação você recupera totalmente um meio ambiente socioambiental degradado, leva renda, diminui a quantidade de calor que está batendo em cima da laje, acaba captando água da chuva e diminui enchente. Além disso, reciclando seu resíduo você diminui a quantidade de resíduo nos aterros sanitários, produz biofertilizantes e acaba criando renda. Através da educação ambiental você promove uma economia circular e uma economia solidária. Tendo em vista que um vizinho vai plantar uma salsinha, o outro cebolinha, coentro, couve… vai ter aquela troca…e esse pensamento de troca alimenta uma cultura de paz.

DUMELA: O que te move a seguir com o projeto?

W.R: O que me move são os sonhos! Tenho esse sonho na verdade de sair dessa coisa do local de bairro e pegar uma esfera municipal, estadual, nacional e ir para América-Latina, Ásia África. Gostaria que o Prato Verde ganhasse o mundo e vejo um potencial muito grande para fazer isso. Eu vejo a longo prazo. O que me move são os sonhos, que não é só meu, gosto de dizer também que tem muitas pessoas por trás de mim. Levar alimentação saudável, equilibrada para as pessoas, matar a fome, nutrir. Você não mata sua fome, você alimenta sonhos, esperança e isso me faz seguir com o projeto há tanto tempo. Acho que ter a vontade de ter vários Prato Verde é um sonho a ser conquistado.

Serviço:

O Prato Verde está localizado no Jaçanã, no bairro Jardim Flores da Terra, Rua dos Filhos da Terra, 944, dentro da Associação Mutirão.

*Aluno do 6º semestre de Jornalismo.

Leave comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *.